Resumo
- A Embrapa entregou ao Mapa uma Nota Técnica detalhando a163 medidas ções para proteger a agropecuária brasileira, motivada pelas projeções do El Niño 2026/2027.
- O objetivo do documento vai além do fenômeno atual e propõe o fim da lógica “reativa” (agir só após a crise), estabelecendo uma política permanente de antecipação, prevenção e monitoramento de riscos.
- O El Niño eleva a probabilidade de chuvas abaixo da média e altas temperaturas no Centro-Norte. O texto mapeia esses impactos (déficit hídrico, atraso nas chuvas) para diversas cadeias produtivas locais, do extrativismo à lavoura e pecuária.
- Das medidas, 14 valem para todos e incluem uso do Zarc, sistemas de integração (ILP/ILPF), planos de contingência, reservas financeiras e seguro rural.
- Outras 139 são focadas nas necessidades de cada cadeia (manejo de solo, irrigação, cultivares adaptadas, etc.).
- Dez medidas dependem de políticas públicas (ações institucionais). Para o Norte, destacam-se a melhoria na prevenção e combate a incêndios florestais, além de maior oferta de crédito para adaptação climática e seguro rural.
- A Embrapa publicará até meados de setembro um documento específico com recomendações exclusivas para a Região Norte.
- O Grupo de Trabalho do Mapa entrega seu relatório final nesta semana. O grande desafio agora é o plano de comunicação, para garantir que todo esse “cardápio de tecnologias” e orientações chegue de fato ao produtor no campo.
A Embrapa entregou ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) uma Nota Técnica com 163 medidas para reduzir os riscos climáticos na agropecuária brasileira, elaborada em resposta à ocorrência do El Niño na safra 2026/2027.
O documento, porém, vai além do fenômeno atual: propõe uma política permanente de gestão de risco climático, pensada também para outros eventos que já afetam regularmente a produção rural no Norte do país, como secas prolongadas, chuvas irregulares e queimadas.
A nota técnica foi produzida pelo Grupo de Trabalho sobre El Niño, criado pelo Mapa, com participação de especialistas da Embrapa e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) — cerca de 50 profissionais da Embrapa contribuíram para as recomendações.
Segundo a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, embora motivado pelo El Niño 2026/27, o documento adota uma perspectiva mais ampla de gestão de riscos agroclimáticos, já que boa parte das ameaças e medidas analisadas também se aplica a outros eventos climáticos recorrentes na produção agropecuária.
Para Eduardo Monteiro, coordenador da Rede Zarc (Zoneamento Agrícola de Risco Climático) e pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, o principal legado do trabalho pode ser justamente essa mudança de postura: sair de uma lógica reativa, que só responde à crise depois que ela acontece, para uma cultura permanente de antecipação, monitoramento e aprendizado diante do clima.
O que o El Niño pode causar na região Norte
O documento traz o histórico de efeitos do El Niño no Brasil em anos anteriores e as projeções para a safra atual. Entre elas, está a maior probabilidade de chuva abaixo da média em áreas do Centro-Norte do País — o que inclui parte da região amazônica —, enquanto o Sul tende a receber volumes acima do normal.
A nota técnica faz uma ressalva importante: essas projeções indicam aumento de risco, mas não determinam de antemão o impacto exato sobre cada região, cultura ou sistema produtivo.
Os riscos considerados vão de atraso no início da estação chuvosa e déficit hídrico prolongado a temperaturas elevadas e tempestades severas.
Os impactos de cada um são detalhados por cadeia produtiva — grãos e fibras, fruticultura, silvicultura, olericultura, pastagens e pecuária, culturas industriais e aquicultura —, o que dá ao produtor do Norte, com sua diversidade produtiva entre lavoura, pecuária e extrativismo, um panorama específico do que observar na própria região.
As medidas que já podem ser aplicadas
Das 163 medidas, 14 são transversais e valem para qualquer produtor, independente da cultura ou criação. Entre elas: monitorar previsões meteorológicas e dados locais, usar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) na hora de decidir o plantio, diversificar a produção no espaço e no tempo, adotar sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) ou lavoura-pecuária-floresta (ILPF), manter a infraestrutura da propriedade em dia, montar um plano de contingência para eventos climáticos adversos, criar reserva financeira e contratar seguro rural como mecanismo de proteção.
Outras 139 medidas são específicas para cada cadeia produtiva, envolvendo manejo do solo, escolha de cultivares, planejamento de operações, investimento em drenagem e irrigação, entre outros pontos técnicos que variam conforme a atividade da propriedade.
O que depende do governo
Das 163 medidas, dez dependem exclusivamente de ação institucional — ou seja, não cabem ao produtor rural implementar sozinho. Estão nessa lista o fortalecimento de instrumentos como o Zarc, a ampliação de linhas de financiamento voltadas à adaptação climática, o aperfeiçoamento do seguro rural, o reforço da assistência técnica, o avanço em pesquisa para desenvolver materiais mais adaptados ao clima, a melhoria dos sistemas de monitoramento agrometeorológico e a ampliação da capacidade nacional de prevenção e combate a incêndios florestais — pauta especialmente sensível para o Norte, onde queimadas costumam se intensificar em anos de El Niño.
Recomendações regionalizadas
A Embrapa já trabalha em notas técnicas regionalizadas, com recomendações específicas para as regiões Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte, com previsão de publicação até meados de setembro.
Um documento equivalente para o Sul do País — “Ações para mitigação dos efeitos do El Niño 2026/2027 na Agricultura do Sul do Brasil” — já está disponível, o que dá uma ideia do formato que a versão nortista deve seguir.
Relatório final sai nesta semana
A nota técnica da Embrapa é uma das frentes de um Grupo de Trabalho mais amplo, criado pela Portaria MAPA nº 928, de 30 de junho de 2026, que também ouviu a Agência Nacional de Águas (ANA) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Nesta quinta-feira, o grupo deve entregar um relatório final reunindo todas as frentes de atuação.
Segundo Bruno Leite, coordenador do GT, o Brasil já tem um “cardápio bastante grande de tecnologias” para enfrentar o El Niño e outros eventos climáticos — o desafio agora é fazer esse conhecimento chegar até o produtor rural.
Uma das recomendações do relatório final, adianta Leite, será a criação de um plano de comunicação coordenado entre as instituições, e o Mapa já trabalha na produção de uma página especial e de vídeos informativos sobre o tema.


