Resumo
- Cientistas brasileiros identificaram um grupo de apenas 18 espécies de árvores (como embaúba, ingá e inajá) responsáveis por liderar a recuperação natural em áreas degradadas da Amazônia.
- Diferente de espécies que precisam de sombra, essas plantas pioneiras suportam solo compactado, calor extremo, seca e sol forte.
- Ao crescerem rapidamente, elas sombreiam o solo, diminuem a temperatura do microclima local e acumulam matéria orgânica, permitindo que espécies mais sensíveis consigam germinar depois.
- O mapeamento dessas árvores-chave orienta o planejamento do plantio em larga escala, barateando custos e acelerando a recuperação de áreas desmatadas.
Pesquisadores brasileiros identificaram quais espécies de árvores são mais importantes para a recuperação da floresta amazônica depois do desmatamento. Liderado por Fernando Elias, do Museu Paraense Emílio Goeldi, o estudo pode orientar projetos de restauração florestal e de sequestro de carbono – o processo pelo qual a vegetação retira dióxido de carbono da atmosfera, ajudando a conter o aquecimento global.
Apoiado pelo Instituto Serrapilheira e colaboração de instituições brasileiras e internacionais, o estudo foi publicado na revista científica internacional Global Change Biology.
De acordo com Elias, cerca de 90% do desmatamento na região ainda segue o modelo de corte e queima para abrir pastagem. O problema é que a floresta faz um trabalho que vai muito além de guardar carbono: ela lança água na atmosfera e ajuda a regular a temperatura local.
Quando a mata é derrubada, esse serviço se perde — e é justamente esse papel que as florestas secundárias, ou capoeiras, começam a recuperar aos poucos, à medida que se regeneram naturalmente sobre a área desmatada.
Pequeno grupo faz a maior parte do trabalho
A equipe de Elias analisou 102 parcelas de floresta secundária em quatro regiões da Amazônia, distantes em média 600 quilômetros umas das outras, e chegou a um padrão que se repetiu em todos os lugares: entre 15 e 25 espécies — de 3% a 6% do total encontrado — respondem por mais da metade do carbono acumulado nessas áreas em regeneração.
Ou seja, a floresta não se recupera de forma aleatória, mas por meio de um grupo relativamente pequeno e previsível de árvores.
Quatro dessas espécies se destacam: embaúba, tatapiririca, ingá-vermelho e araticum-bravo. Juntas, elas respondem por até 27% de toda a vegetação e do carbono armazenado nas áreas estudadas.
Segundo o pesquisador, entender o papel dessas árvores ao longo da regeneração ajuda a explicar como a floresta secundária contribui para o clima da região — inclusive na temperatura. Dados preliminares indicam que áreas florestadas podem ficar de 2°C a 3°C mais frescas do que áreas desmatadas.
Capoeiras raramente têm tempo de se recuperar
As florestas secundárias ocupam hoje cerca de 148 mil km² da Amazônia – mas enfrentam uma ameaça constante. Segundo o estudo, 57% dessas áreas sofrem novo desmatamento em até 10 anos depois de começarem a se regenerar, e 80% são derrubadas novamente em até 20 anos.
Cada novo corte reinicia o processo e reduz a capacidade da floresta de recuperar sua biodiversidade original.
Quando têm tempo de se regenerar sem interrupção, porém, os números são animadores: nos primeiros 40 anos, as capoeiras podem recuperar até 88% da quantidade de espécies e 85% da composição original da floresta.
Em termos de carbono, elas acumulam 24% do estoque de uma floresta primária já nos primeiros 20 anos, a um ritmo de 1,2% ao ano.
Torres vão medir o efeito da floresta no clima local
Como parte da pesquisa, os cientistas instalaram as duas primeiras torres de monitoramento climático em floresta secundária na Amazônia, ambas na região de Capitão Poço, no nordeste do Pará.
Uma tem 20 metros de altura e monitora uma capoeira de cerca de 35 anos, em 56 hectares; a outra, com 40 metros, acompanha um fragmento de floresta primária de 500 hectares no mesmo município.
As estruturas têm sensores instalados em diferentes alturas para medir temperatura e umidade do ar, da superfície e do solo em tempo real — a torre maior conta com pelo menos 10 sensores de alta precisão e deve funcionar por, no mínimo, 12 meses seguidos, cobrindo tanto a estação seca quanto a chuvosa.
O foco é entender a evapotranspiração, processo pelo qual as árvores retiram água do solo e a devolvem à atmosfera, funcionando como “bombas bióticas” que alimentam a formação de nuvens e ajudam a manter o regime de chuvas e a temperatura da região.
Os dados coletados pelas torres serão cruzados com imagens de satélite para calibrar modelos de sensoriamento remoto capazes de monitorar toda a bacia amazônica — permitindo comparar, em escala muito maior, como florestas primárias e secundárias recuperam os serviços climáticos perdidos com o desmatamento.
A pesquisa contou ainda com apoio do CNPq, do Museu Goeldi, do Centro Capoeira e da Rede Amazônia Sustentável.


