Resumo
- O curta-metragem “Território em trânsito” foi exibido no XII Fórum Social Pan-Amazônico (FOSPA), no Equador, e usado como prova no Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza.
- A produção de sete minutos, dirigida por Lucas Escócio e Lucas Negrão, retrata a rotina e as dificuldades enfrentadas pelas comunidades artesanais do Marajó.
- Moradores relatam redes destruídas, alteração de rotas de navegação e medo de acidentes noturnos provocados pela passagem constante de navios.
- O filme alerta para os riscos da exploração na Foz do Amazonas e traz relatos de pescadores que contestam simulações oficiais de vazamento, apontando que as correntes marítimas trazem resíduos da região do Oiapoque até as praias locais.
- A obra documenta o desaparecimento de espécies tradicionais, como a dourada e a pescada, forçando os pescadores a navegar para mais longe, aumentando os custos e o tempo fora de casa.
As aflições e a resistência dos povos das águas do Marajó ganharam visibilidade internacional no XII Fórum Social Pan-Amazônico (FOSPA), realizado no Equador. O curta-metragem “Território em Trânsito” — idealizado pela Rede de Trabalho Amazônico (GTA) em conjunto com o Coletivo Pororoka — integrou a mostra do Festival Internacional de Cine Ambiental (ECOador) e serviu como prova documental no Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, durante o painel voltado à defesa de uma Amazônia sem combustíveis fósseis.
Dirigido por Lucas Escócio e Lucas Negrão, o documentário de sete minutos dá voz a quem costuma ser ignorado nos grandes projetos de infraestrutura: os pescadores artesanais.
Relatos como o de Jaqueline Gonçalves, mulher marajoara de família de pescadores, e de Lucivaldo Santos, da comunidade de Água Boa, expõem o impacto imediato do tráfego de grandes navios no cotidiano local.
“Os peixes não estão mais aqui como antes. Então isso é muito triste pra nós que temos isso de muitas gerações e hoje isso está se perdendo”, diz Jaqueline.
A passagem constante dessas embarcações avaria redes, força mudanças de rota e assusta os trabalhadores, que relatam receio de navegar no período noturno devido aos riscos de acidentes.
Para além dos problemas já enfrentados, a perspectiva de exploração petrolífera na Foz do Amazonas gera grande apreensão.
Sob a coordenação local de Nelson Bastos, o filme destaca a contestação dos moradores aos modelos teóricos sobre vazamentos. Os próprios pescadores explicam que as correntes marítimas trazem com frequência objetos perdidos na região do Oiapoque até as praias do arquipélago, provando que um eventual derramamento de óleo atingiria diretamente o Marajó.
“Este é o momento da gente dizer: ‘Olha nos estamos aqui no nosso território pesqueiro, no município de Salvaterra, na Ilha de Marajó, nós não queremos viver com ódio nas nossas praias. É hora de nos chamarem pra gente construir essa transição energética juntos: governo, sociedade, territórios, povos da Amazônia”, afirma Nelson Bastos. “O estado brasileiro precisa ter uma posição em relação a isso”, completa.
A produção também documenta o declínio dos recursos pesqueiros: espécies antes abundantes, como a dourada, sumiram de vários trechos, enquanto a pescada amarela e a branca estão cada vez mais escassas. Isso obriga as famílias a viagens mais longas, com maior custo de combustível e mais tempo longe de casa.
Aclamada no Equador, a obra lembra que a discussão sobre transição energética e projetos extrativistas exige ouvir quem habita o território há gerações. A equipe técnica do curta conta ainda com João Paulo Guimarães no roteiro e câmera, Elielson Almeida e Nelson Bastos na pesquisa e entrevistas, além de Thiago Cabral na logística e produção.


