Resumo
- As secas recorrentes na Amazônia indicam que os eventos extremos viraram uma condição re não mais uma exceção na região.
- O tema foi debatido no webinar “Diálogos Amazônicos – Seca nos rios Amazônicos: Clima e Economia”.
- Como a Amazônia depende quase 100% dos rios para transporte, as estiagens afetam cadeias produtivas em todo o Brasil.
- Modelos desenvolvidos por pesquisadores da UEA já projetam a navegabilidade dos rios com meses de antecedência, ajudando empresas e governos a reduzirem riscos.
- Diante da crise, especialistas e autoridades defendem explorar melhor o potencial hidroviário brasileiro e integrar governo, academia e setor privado para garantir a competitividade do País.
Em 2024, o Rio Negro atingiu o menor nível já registrado em mais de um século de medições — um sinal, segundo especialistas, de que a Amazônia entrou em um regime climático diferente do observado nas décadas anteriores. Para especialistas reunidos em debate promovido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), essa mudança indica que as secas extremas deixaram de ser um evento pontual e se tornaram uma condição recorrente da região.
O diagnóstico foi discutido no webinar “Diálogos Amazônicos – Seca nos rios Amazônicos: Clima e Economia”, que reuniu pesquisadores, representantes do governo federal e do setor produtivo.
O ponto central do debate não foi o clima, mas sua consequência direta: a dependência quase total da região amazônica em relação aos rios para transporte. Quando a navegação é interrompida ou reduzida por falta d’água, o efeito não fica restrito ao Norte do País — alcança cadeias produtivas nacionais inteiras.
Um problema econômico
O presidente-executivo do CIEAM (Centro da Indústria do Estado do Amazonas), Lúcio Flávio Morais de Oliveira, argumenta que os efeitos das secas extrapolam a esfera ambiental. S
egundo ele, o Polo Industrial de Manaus está integrado a cadeias produtivas de todo o país e depende dos rios tanto para receber insumos quanto para escoar produção — o que torna a adaptação logística uma “necessidade estratégica para garantir competitividade, abastecimento e desenvolvimento econômico”.
Essa leitura é reforçada por quem estuda o comportamento dos rios de perto. O professor Francis Wagner, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), afirma que a alternância entre secas e cheias extremas passou a acontecer em ciclos muito mais curtos do que no passado — o que, somado à previsão de fortalecimento do El Niño, torna o monitoramento contínuo dos rios uma prioridade.
Tecnologia para antecipar o problema
Uma resposta que já está em curso é o desenvolvimento de modelos preditivos. Pesquisadores da UEA conseguem hoje projetar, com meses de antecedência, o comportamento dos principais rios da região — estimando navegabilidade, profundidade dos canais e restrições ao tráfego de embarcações. Empresas e órgãos públicos já usam essas informações para planejar operações e reduzir riscos durante períodos de estiagem.
Hidrovias: um potencial pouco explorado
Para o secretário nacional de Hidrovias e Navegação do Ministério de Portos e Aeroportos, Otton Luís Bulhões da Silveira Filho, o Brasil ainda subutiliza seu potencial hidroviário. Ele defende que ampliar o planejamento preventivo — e integrar governo, universidades e setor privado — é condição para tornar a logística do país mais resistente à frequência crescente de eventos climáticos extremos.
Na visão do CIEAM, o encontro deixou clara uma mudança de prioridade: investir em infraestrutura e monitoramento climático na Amazônia não é mais uma pauta ambiental isolada, mas uma agenda que toca diretamente a competitividade da indústria nacional e o funcionamento de cadeias produtivas estratégicas.
Fonte: Portal Amazônia


