Resumo
- Garimpeiros ilegais e o crime organizado migraram do foco exclusivo em ouro e madeira para a extração em escala quase industrial de minerais críticos e elementos de terras raras na Amazônia, de acordo com o The New York Times.
- O Brasil detém a segunda maior reserva global de terras raras e quase a totalidade do nióbio do planeta. Países como os Estados Unidos buscam essas reservas para reduzir a dependência de refino e o monopólio da China.
- Impulsionados pela transição energética mundial, esses minerais abastecem mercados de tecnologia de ponta (veículos elétricos, drones e caças). O mercado global é avaliado em US$ 300 bilhões e deve dobrar até 2035.
- A cadeia utiliza as mesmas rotas logísticas (terrestres, aéreas e fluviais) do tráfico de drogas e ouro e envolve fraudes documentais.
- Os impactos vão da aceleração da degradação ambiental rumo ao ponto de não retorno da floresta até registro de violações de direitos humanos.
- Projetos de lei para fortalecer fiscalização e rastreabilidade são algumas medidas a serem tomadas.
A Floresta Amazônica, que por décadas enfrentou o saque sistemático de recursos como borracha, madeira e ouro, tornou-se alvo de uma nova e sofisticada vertente do crime organizado: a extração ilegal de minerais críticos e elementos de terras raras, segundo matéria do The New York Times.
De acordo com autoridades e especialistas do setor de segurança, a explosão da demanda global por esses insumos — essenciais para a fabricação de motores de veículos elétricos, drones e mísseis guiados — desencadeou uma onda de mineração clandestina em escala quase industrial em um dos ecossistemas mais sensíveis do planeta.
Quem está de olho no subsolo brasileiro
O avanço dessa atividade coincide com um cenário de intensa disputa geopolítica internacional. Os Estados Unidos e aliados ocidentais têm voltado seus olhos para o Brasil, detentor de algumas das maiores reservas minerais estratégicas do mundo, com o objetivo claro de quebrar o monopólio global que a China exerce sobre o refino e o fornecimento desses materiais.
De acordo com a reportagem, estima-se que o mercado global de minerais essenciais, impulsionado pela transição energética, movimente mais de US$ 300 bilhões atualmente, com projeção de dobrar de tamanho até 2035, segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE).
“A demanda é muito forte — e só aumenta. O que estamos vendo na Amazônia não é mineração artesanal. São operações em escala quase industrial”, disse ao jornal americano Humberto Freire de Barros, diretor da Polícia Federal para a Amazônia e o Meio Ambiente.
O Brasil possui entre 19% e 23% das reservas globais de terras raras (ficando atrás apenas do território chinês) e concentra praticamente a totalidade das reservas mundiais de nióbio, metal indispensável para a produção de aço de alta resistência utilizado em gasodutos e motores a jato.
A engenharia e a logística do crime
Apesar de abundantes na crosta terrestre, as terras raras exigem processos complexos de separação e refino. Para contornar a falta de tecnologia local, os criminosos extraem grandes volumes de solo bruto misturado aos minerais e exportam a matéria-prima diretamente para processamento no exterior.
Operações recentes da Polícia Federal também flagraram a extração ilegal de outros componentes fundamentais, como o manganês, utilizado em baterias automotivas.
A cadeia de suprimentos do crime opera de forma integrada e espelha a logística já consolidada de outras commodities ilegais:
- Logística compartilhada: Os minerais deixam o interior da floresta por rotas terrestres, fluviais e aéreas idênticas às usadas no tráfico de cocaína e no garimpo de ouro.
- Lavagem de minerais: Empresas de fachada simulam a legalidade do material, muitas vezes obtendo licenças ambientais fraudulentas emitidas por servidores públicos corrompidos.
- Exportação e camuflagem: Agentes aduaneiros são subornados em portos marítimos para ignorar carregamentos declarados sob falsos pretextos.
Rômulo Brandão Neto, agente aduaneiro da Receita Federal, revela que os contrabandistas costumam utilizar certificados de origem falsificados ligados a “minas fantasmas” — locais onde imagens de satélite comprovam a total ausência de atividade extrativa legítima.
Outra tática frequente é misturar as terras raras em sacos de minério de ferro para ludibriar a fiscalização visual nos portos devido às semelhanças geológicas.
“Esses sacos de material estão aparecendo em barcaças, e ninguém sabe ao certo do que se trata”, pontua Robert Muggah, diretor de pesquisa do Instituto Igarapé.
Impacto ambiental
A escalada da mineração ilegal ameaça diretamente as metas climáticas do Brasil. Embora o desmatamento tenha apresentado reduções severas na gestão atual, cientistas alertam que a degradação do solo e a contaminação hídrica causadas pelo garimpo aceleram o risco de a floresta atingir um ponto de não retorno ecológico.
Comunidades indígenas sofrem com rios poluídos por rejeitos químicos, contaminação do solo e episódios severos de violação de direitos humanos, incluindo o trabalho forçado coordenado por facções criminosas.
Resposta institucional
Para conter a crise e proteger a ambição do País de se tornar um exportador global sustentável de minerais, o Poder Legislativo brasileiro analisa projetos de leis para redesenhar a fiscalização, endurecer a rastreabilidade e delimitar zonas exclusivas de exploração.
Na esfera policial, a estratégia envolve inteligência molecular. A Polícia Federal está implementando um banco de dados de assinaturas químicas de minerais, permitindo mapear a exata origem geográfica de amostras apreendidas e identificar os elos corporativos e financeiros que sustentam o mercado ilícito no exterior.


