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ECONOMIA 22 de maio de 2026

Bioeconomia da sociobiodiversidade movimenta mais de R$ 13 bi por ano no Pará

Relatório preliminar coordenado pela Fapespa revela o peso de cadeias como açaí, mandioca e cacau
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Mandioca produzida no Pará. Foto: Macio Ferreira/Agência Pará
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A bioeconomia da sociobiodiversidade movimenta R$ 13,5 bilhões por ano em Valor Bruto da Produção (VBP) no Pará, segundo Relatório Técnico Preliminar coordenado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), em parceria com universidades federais.

Baseado em metodologias da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estudo identificou o protagonismo de cadeias como mandioca (R$ 6,5 bilhões), pesca e aquicultura (R$ 2,7 bilhões), cacau (R$ 1,7 bilhão) e açaí (R$ 1,5 bilhão).

Embora o VBP total da agropecuária (R$ 30 bilhões) e da mineração (R$ 140 bilhões) seja maior, os pesquisadores destacam a relevância social do setor, que ocupou 271.410 pessoas e gerou R$ 1,4 bilhão em massa salarial.

Além disso, cada real investido na atividade gera R$ 1,13 no PIB estadual, com o efeito multiplicador crescendo ao longo da cadeia: R$ 1,14 na matéria-prima, R$ 1,27 na indústria e R$ 1,40 na comercialização.

“A Rede de Bioeconomia é resultado de uma articulação que transcende a formação de um consórcio de pesquisa, representando uma resposta estruturada à necessidade premente de construir um novo paradigma de desenvolvimento para a Amazônia, fundamentado em dados robustos e cientificamente validados”, destaca o presidente da Fapespa, professor Marcel Botelho.

Extrativismo e o caso do cumaru

A pesquisa, realizada em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), revelou que a produção de cumaru no Pará está subnotificada.

Enquanto os dados oficiais do IBGE registraram 148 toneladas (R$ 13,3 milhões), o levantamento da Rede – focado nos compradores e beneficiadores concentrados – identificou 267 toneladas efetivas, movimentando R$ 24,4 milhões.

O estudo detalha que o Cumaru ganha 330% de valor ao ser industrializado, mas esse processo ocorre fora do Pará. Na etapa inicial, o coletor retém 69,9% do valor adicionado. Já no ciclo industrial, a indústria captura 73,9% do valor gerado, reduzindo a participação do extrativista para 23,3%.

“Os dados de produção do Cumaru estão subestimados, os negócios estão voltados majoritariamente para a exportação e há muitas possibilidades de inovação local para agregar valor ao longo da cadeia”, ressaltou o prof. Dr. Luiz Gonzaga Feijão da Silva, da Ufopa, no I Encontro da Cadeia Produtiva do Cumaru no Oeste do Pará (ECOCumaru), realizado em Santarém.

Desafios estruturais e alerta climático

A elevada informalidade é um dos principais entraves econômicos. Na cadeia da mandioca, por exemplo, mais de 99% da atividade ocorre fora dos registros fiscais devido à produção concentrada em estruturas comunitárias e informais.

Outro desafio é a distribuição desigual de renda: na cadeia da castanha-do-pará, os coletores retêm apenas 2,9% do valor final do produto. Em contrapartida, nas cadeias de andiroba e copaíba, onde há associações organizadas, as comunidades retêm entre 19% e 31% do valor.

Somam-se a isso as ameaças da emergência climática. Pesquisas de campo em municípios como Marabá, Rondon do Pará, Santarém e Oriximiná apontam perdas severas na produção de castanha, mandioca e açaí devido a secas e queimadas, impactando a segurança alimentar local.

“Assim, a Fapespa atende à demanda da sociedade por informações que fomentem a tomada de decisão por parte dos agentes formuladores de políticas públicas, agentes econômicos e demais entidades responsáveis por estudos e análises setoriais, que são protagonistas e essenciais para o planejamento e a avaliação de políticas regionais e municipais”, completa Marcel Botelho.

Oportunidades e governança

O fortalecimento de cooperativas surge como o principal caminho para reter valor no estado. O Pará conta com um ecossistema de políticas públicas estruturado para apoiar a transição, liderado pela Política Estadual sobre Mudanças Climáticas (PEMC/PA), operacionalizado pelo Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA) e detalhado pelo Plano Estadual de Bioeconomia (PlanBio).

“Isso quer dizer que para os pesquisadores, o futuro da bioeconomia no Pará depende menos de expandir a extração e mais de redistribuir valor, fortalecer a organização social e proteger os territórios diante da crise climática. O setor já existe, gera bilhões e sustenta milhares de famílias. O desafio agora é transformá-lo em um forte vetor de desenvolvimento sustentável e equitativo para a Amazônia”, observa a diretora de Estatística e de Tecnologia e Gestão da Informação da Fapespa, Atyliana Dias.

Próximos passos

A Rede prepara para novembro o Relatório Preliminar de 2026, que trará novas frentes analíticas: o consumo intermediário da bioeconomia (insumos e matriz tecnológica), o detalhamento da demanda (consumo das famílias, empresas e compras governamentais), a integração dos fluxos do cacau e da mandioca, e a criação de um Índice de Resiliência Socioambiental municipal.

“Esse estudo, coordenado pela Fapespa, é de extrema relevância para mostrar que, mais do que uma promessa, a socioeconomia é uma realidade em nosso Estado. Graças aos esforços do governo do Estado do Pará, desde o nosso governador Helder até a nossa governadora Hana, tem trazido cada vez mais a integração do conhecimento tradicional às novas realidades científicas e a integração com inovação capaz de alavancar ainda mais os produtos da socioeconomia, ganhando cada vez mais escala, cada vez mais mercado, credibilidade e fazendo com que a renda gerada através desses produtos reverta-se em qualidade de vida para nossa população”, finaliza o presidente da Fapespa

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