Por Tereza Coelho
O consumo de peixes como tucunaré, piranha e pirarucu, que fazem parte da cultura alimentar de comunidades do oeste paraense, podem estar colocando em risco a saúde de milhares de pessoas. É o que revela um estudo da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), que identificou níveis alarmantes de metais tóxicos como mercúrio, arsênio, cádmio e chumbo em espécies consumidas na região.
A pesquisa analisou 398 peixes coletados em municípios como Faro, Juruti, Santarém, Oriximiná (incluindo a região de Porto Trombetas) e Itaituba. Entre as espécies estudadas estão tucunaré, piranha e pirarucu, protagonistas da dieta da população e de parte dos lucros da economia local.
O grande causador de tudo isso? a interferência humana e ilegalidade em atividades como garimpo, mineração e desmatamento.
A investigação principal comparou dois cenários de consumo: o brasileiro, considerando a ingestão de 24 gramas de pescado por dia, e o amazônico, que pode ultrapassar a marca de 460 gramas de pescado ingeridas diariamente. Os dados indicam que a dieta na Amazônia potencializa drasticamente os riscos à saúde a longo prazo, em comparação ao restante do país.
Arsênio e Mercúrio em altas concentrações
O estudo aponta que o mercúrio, metal considerado altamente tóxico, foi encontrado acima dos limites considerados seguros principalmente em peixes carnívoros, que ocupam o topo da cadeia alimentar. Praticamente todas as amostras apresentaram níveis de risco à saúde acima do recomendado para efeitos não cancerígenos.
Em situações mais críticas, como no caso de tucunarés coletados em Porto Trombetas, o índice de risco chegou a ser quase 29 vezes maior do que o limite considerado seguro ao longo da vida.
Além disso, o estudo também aponta para consequências de longo prazo associadas ao consumo dessas espécies. A presença de arsênio, por exemplo, foi associada a um risco elevado de câncer em cerca de 25% das amostras.
O pesquisador conta ainda que, embora exista riscos no consumo elevado desses peixes, isso não significa que eles estejam impróprios para o consumo, pois é necessário levar em consideração a variação dos locais, assim como também existem espécies predadoras com baixa concentração de substâncias tóxicas.
A pesquisa, segundo ele, pretende chamar a atenção para as situações de degradação ambiental na região que podem aumentar a concentração das substâncias a níveis mais arriscados.
A pesquisa reforça ainda que as diretrizes nacionais não podem ser usadas para avaliar os riscos à saúde de elementos com alta toxicidade em populações amazônicas, pois o alto consumo de peixe impacta significativamente no risco humano.
Atividades predatórias
Segundo a pesquisa contaminação está diretamente ligada às transformações ambientais na Amazônia. Atividades como o garimpo ilegal, mineração de bauxita e o avanço da agricultura mecanizada têm contribuído para a liberação de metais pesados nos rios. Esses elementos entram na cadeia alimentar e se acumulam nos peixes ao longo do tempo.
Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a adoção urgente de políticas públicas integradas como o monitoramento contínuo da qualidade da água e dos peixes, ações de vigilância em saúde e orientações alimentares adaptadas à realidade local.
O desafio, segundo o estudo, é encontrar um equilíbrio entre garantir a segurança alimentar dessas populações e reduzir os riscos à saúde para garantir uma sobrevivência digna para quem trabalha e vive dos rios.
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