A agricultora Carmem Lúcia Barbosa da Silva, moradora da comunidade de São Francisco do Poraquê, em Mojuí dos Campos (oeste do Pará), tornou-se símbolo de uma nova fase para o produtor rural na Amazônia. Desde o início de 2026, de acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), ela recupera 89 hectares de sua propriedade com o plantio de açaí, cacau, cumaru, pequi e espécies nativas, por meio do projeto Regulariza Rural.
Pelo resultado de sua iniciativa, Carmem foi homenageada no último dia 11 de março em Brasília, durante a mostra que celebrou os 20 anos do Serviço Florestal Brasileiro.
“A recuperação da minha área é recente, mas já mudou tudo na minha vida. Já tenho consciência de que teremos uma renda maior e mais sustentável”, afirmou a produtora, que agora também gera empregos em sua terra.
Financiado pelo banco alemão KfW e pelo IICA, com apoio do Serviço Florestal Brasileiro e da Semas-PA, o projeto foca na recuperação de áreas desmatadas ilegalmente em pequenas propriedades. Atualmente, a iniciativa beneficia 68 produtores em três regiões do Pará, somando 600 hectares em processo de restauro.
“A nossa cabeça muda muito. A gente aprende a plantar de verdade. Eu já tinha algumas mudas, mas foi o projeto que deu o empurrão final”, destaca a produtora.
O modelo propõe uma alternativa à pecuária de corte, predominante na região, mas que enfrenta barreiras de mercado devido a irregularidades ambientais.
“Além de ser muito mais trabalhosa e cara, essa prática (gado de corte) acaba gerando mais consequências ambientais e, por conta da irregularidade dessas áreas, o produtor não consegue nem vender para frigoríficos certificados. Por isso, o restauro com plantas produtivas e nativas é muito mais prático, rentável e seguro para essas pessoas e, graças a novas leis do estado, permite um restauro produtivo que também regulariza essas terras”, explica Taiany Liborio, analista de pesquisa do IPAM.
Acesso ao crédito
A existência de passivos ambientais em pequenas propriedades, desmatadas ilegalmente— como os 17 milhões de hectares de Reserva Legal em falta no Pará, segundo o Termômetro do Código Florestal — bloqueia o acesso dos pequenos produtores a crédito e assistência rural. O projeto Regulariza Rural rompe esse ciclo ao unir a recuperação da floresta com a produção sustentável de frutas e sementes.
Para Carmem Lúcia, a mudança foi também cultural.
No começo, o pessoal que mora comigo achava que era só conversa, que não valeria a pena, mas agora todos temos uma visão diferente e percebemos que dá, sim, para produzir recuperando a área e sem desmatamento. Agora as pessoas vêm me perguntar como fazer para começar e como se organizar para realizar o restauro”, destaca a agricultora
O papel da Reserva Legal
Embora a renda da Reserva Legal seja menor que a de uma área de produção consolidada, ela funciona como um incentivo para a transição produtiva. Taiany Liborio observa que uma mudança de visão de produtores da região.
“Temos acompanhado uma transição: o pessoal que antes trabalhava apenas com gado e nunca tinha plantado nada agora amplia sua visão e se capacita para novas formas de produção”, destaca Taiany.


