O avanço da mineração ilegal de ouro na Amazônia está acelerando a devastação da floresta e consolidando a presença de organizações criminosas na região. Estas são as conclusões centrais do GameChangers 2025, relatório anual da organização de jornalismo investigativo Insight Crime.
O estudo, assinado por especialistas em economias ilegais transfronteiriças, utilizou dados da plataforma Global Forest Watch para monitorar a perda de cobertura vegetal. Segundo o documento, novas frentes de exploração surgiram em áreas anteriormente preservadas, como no sul do Equador e ao longo do rio Puré, na fronteira entre Colômbia e Brasil.
A proliferação de garimpos no Brasil, Peru e Venezuela é impulsionada pela valorização recorde do metal. Nos últimos dez anos, o preço da onça de ouro saltou de US$ 1.060 para US$ 4.030. Esse cenário atrai redes criminosas e grupos informais que veem na exploração ilícita uma fonte de alta rentabilidade.
Impacto ambiental e humanitário
A atividade já atinge dezenas de áreas protegidas. Dados da ONG Amazon Conservation indicam a existência de mais de 4 mil pontos de mineração clandestina na bacia amazônica. Entre 2018 e 2024, a mineração causou a perda de 2 milhões de hectares de floresta, sendo que um terço dessa destruição ocorreu dentro de terras indígenas e unidades de conservação.
Além do desmatamento, o uso de mercúrio para separar o ouro gera um desastre ambiental e de saúde pública. O metal pesado contamina rios e entra na cadeia alimentar, afetando peixes e comunidades ribeirinhas. A exposição ao mercúrio causa danos neurológicos graves e compromete ecossistemas aquáticos ao turvar o curso natural das águas.
O domínio das facções
A mineração ilegal não opera sozinha; ela integra um ecossistema criminoso que inclui grilagem, extração de madeira e tráfico de drogas. Facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), expandiram sua atuação para controlar essas rotas e territórios.
O lucro obtido é reinvestido em estradas clandestinas e na manutenção de um “governo paralelo”, onde grupos impõem regras a populações locais. Esse ciclo de violência resultou na morte de mais de mil defensores ambientais entre 2012 e 2024, principalmente no Brasil e na Colômbia.
Perspectivas e desafios
O cenário pode se agravar com a instabilidade geopolítica no Oriente Médio, que tende a elevar a cotação do ouro para além de US$ 5.000 a onça. Embora o Brasil tenha intensificado operações policiais e o fechamento de garimpos, as regiões de fronteira seguem vulneráveis. O relatório reforça a urgência de ações coordenadas entre os nove países amazônicos para combater o crime organizado e proteger a floresta.


