Enquanto a escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã faz o preço do barril de petróleo disparar, um novo estudo internacional revela que o “manual de instruções” para o mundo se livrar da dependência dos combustíveis fósseis já existe. Publicado nesta terça-feira 10, o relatório aponta que 46 países já possuem planos de descarbonização, enquanto outras 11 nações — incluindo Brasil, Colômbia e Reino Unido — estudam medidas para limitar a oferta desses insumos.
O documento, produzido por think-tanks como o IISD, E3G, Ecco, Sefia e o Observatório do Clima, chega em um momento em que a volatilidade energética ameaça a inflação e o crescimento global. Em abril, o foco se voltará para Santa Marta, na Colômbia, que sediará a primeira conferência internacional dedicada exclusivamente a discutir essa transição.
Os cinco pilares da transição justa
Para os especialistas, um “mapa do caminho” eficaz não pode ser apenas uma promessa ambiental; ele precisa de viabilidade econômica e justiça social. O estudo elenca cinco critérios essenciais:
- Alinhamento científico: Metas baseadas em dados climáticos rigorosos.
- Foco duplo: Atuar simultaneamente na produção (oferta) e no consumo (demanda).
- Justiça social: Planejamento inclusivo que proteja trabalhadores do setor.
- Integração governamental: A transição deve ser política de Estado, não apenas de um ministério.
- Financiamento coordenado: Apoio internacional robusto e monitoramento constante.
“Os debates na COP30 mostraram que muitos países estão prontos para ir além das promessas e ter conversas práticas”, analisa Alexandra Scott, da Ecco. Segundo ela, apesar das tensões geopolíticas, a cooperação é o único caminho para que países dispostos a mudar não enfrentem os riscos econômicos sozinhos.
Exemplos que vêm do campo
O relatório traz lições de quem já está testando a transição na prática. A Alemanha transformou a eliminação do carvão em lei após negociações sociais complexas. O Chile implementou revisões periódicas para aumentar a ambição de suas metas, enquanto parcerias na Indonésia e no Vietnã vincularam o fim dos fósseis ao financiamento internacional.
A mensagem dos pesquisadores é clara: a transição já começou. O risco agora é que ela ocorra de forma desordenada. “A questão é se os governos a gerenciam de forma deliberada”, afirma Angela Picciariello, do IISD. Sem planejamento, países correm o risco de investir em uma oferta que não terá demanda futura, gerando prejuízos fiscais e ativos “encalhados”.
2026: A janela de oportunidade
Com o Brasil na presidência da COP30 e a conferência de Santa Marta no horizonte, 2026 é visto como o ano decisivo para conectar planos nacionais a uma estratégia global. Para Stela Herschmann, do Observatório do Clima, a clareza é vital especialmente para países produtores: “Eles precisam de trajetórias previsíveis para diversificar suas economias com sucesso”.
A dependência do petróleo, além de uma vulnerabilidade ambiental, tornou-se um motor de instabilidade.
“Gerenciar essa transição de forma coordenada é do interesse de todos para construir segurança e resiliência de longo prazo”, conclui Katrine Petersen, da E3G.


