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MEIO AMBIENTE 3 de junho de 2026

Pasto degradado vira floresta produtiva nas mãos de mulheres em São Félix do Xingu

Agricultoras apostam na agrofloresta para gerar renda e fortalecer produção no campo
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Associação das Mulheres Produtoras de Polpa de Fruta com produtos da Delícia do Quintal. Foto: Imaflora
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Resumo

  • Em São Félix do Xingu (PA), município com o maior rebanho bovino do País e histórico de desmatamento, um grupo de 43 agricultoras da AMPPF está recuperando áreas degradadas de pastagem por meio de Sistemas Agroflorestais (SAFs).
  • Criada há 14 anos, a associação expandiu sua capacidade de produção de polpas de frutas de 20 para 50 toneladas anuais após receber apoio técnico do programa Florestas de Valor, do Imaflora, com suporte da Petrobras.

  • Sob a marca ‘Delícia do Quintal’, as produtoras conquistaram contratos via PNAE e PAA, movimentando R$ 375 mil em um único ano. A produção atende mais de 18 mil alunos da rede pública e garante autonomia financeira às mulheres.

  • O mercado estável gerado pelas compras públicas permite que as famílias planejem a produção de forma integrada, dispensando a necessidade de abrir novas áreas de plantio e substituindo o capim por floresta viva.

São Félix do Xingu possui o maior rebanho bovino do Brasil, registrando uma média de 40 cabeças de gado por morador. Como consequência direta da pecuária extensiva, a região é historicamente associada a altos índices de desmatamento. Entretanto, um grupo de agricultoras locais está provando que manter a floresta em pé também pode gerar renda e grandes oportunidades de desenvolvimento sustentável. É o trabalho delas que destacamos nesta Semana do Meio Ambiente.

A iniciativa ganha força por meio da Associação das Mulheres Produtoras de Polpa de Fruta (AMPPF), que conta com 43 produtoras. Elas apostam nos Sistemas Agroflorestais (SAFs) para recuperar áreas degradadas e fortalecer a agricultura familiar. Essa técnica agrícola combina árvores nativas, frutíferas e cultivos alimentares, como verduras e legumes, exatamente onde antes só havia capim.

Maria Josefa Neves, presidente da associação, conta que, por muito tempo, o trabalho feito por ela e outras agricultoras não recebia tanta importância. A estruturação da associação, criada há 14 anos, inverteu esse cenário e trouxe novas opções para todas. Ela relembra as dificuldades do início:

“Existe o costume de classificar todo o cuidado da propriedade como trabalho doméstico, principalmente quando é feito por uma mulher. Esse trabalho é muito digno e merece todo reconhecimento, mas a gente via que falavam de propósito pra tirar a credibilidade do nosso esforço diário”, relembra.

Parcerias que geram valor

O projeto começou como uma associação para facilitar a venda de polpas de frutas abundantes nos quintais das famílias, como acerola, goiaba, cajá, caju e abacaxi. Com o passar do tempo, a organização foi ganhando novos contornos. Quatro anos após o início de suas atividades, veio a oportunidade de uma parceria em suporte técnico através do programa Florestas de Valor, promovido pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), com apoio da Petrobras.

Ao longo desses anos, esse apoio técnico permitiu a construção de uma nova usina de produção de polpa de fruta, fazendo com que a capacidade de produção das agricultoras saltasse de 20 para 50 toneladas anuais. Essa expansão estrutural gerou contratos anuais com a Secretaria Municipal de Educação, integrando as produtoras ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), trazendo mudanças concretas na renda pessoal de cada agricultora.

Celma de Oliveira, coordenadora do programa Florestas de Valor no município, conta que a iniciativa funciona como uma ponte técnica e institucional indispensável para a associação.

“O programa garante que a associação tenha segurança jurídica e técnica para gerir recursos públicos com transparência. O PNAE e o PAA também funcionam como ferramentas de conservação ambiental, ao criarem mercado para a agricultura familiar sustentável”, afirma.

Para Celma, os contratos ajudam a trazer estabilidade e perspectivas de futuro para as associadas. Ao ter sua demanda estabilizada, elas conseguem planejar a produção de forma mais integrada, dispensando a abertura de novas áreas de plantio e reduzindo sensivelmente a pressão sobre a floresta.

Da subsistência à autonomia financeira

Josefa relembra que a organização das agricultoras veio justamente com a ideia de vender polpas de frutas e beneficiar a matéria-prima dos quintais. Com os anos e a ampliação técnica, o projeto expandiu e virou a marca ‘Delícia do Quintal’. Hoje, essas frutas são beneficiadas em uma agroindústria própria da associação, equipada com usina de processamento e câmaras frias. Atualmente, a Delícia do Quintal contribui na alimentação escolar de mais de 18 mil alunos da rede pública do município. Josefa celebra as conquistas:

“É uma grande conquista pra gente e para o meio ambiente. Se antes muitas de nós precisavam pedir dinheiro para comprar algo em casa, agora temos condições de comprar uma moto, ajudar os filhos a participar de coisas da escola em outra cidade, passear um pouco mais e testar novos plantios”, celebra.

Com o fornecimento ao PNAE, a iniciativa movimentou cerca de R$ 375 mil em um único ano, ampliando a renda das famílias e fortalecendo a economia local de São Félix do Xingu.

“Pra quem não tinha nada, hoje pode dizer que temos tudo. O contrato foi crescendo conforme a gente crescia. Um dos nossos primeiros acordos foi de R$ 230 mil e todos os anos aumenta mais um pouco, um incentivo e tanto”, resume Josefa.

Além da conquista de renda própria e da autonomia financeira das mulheres, a transformação mudou profundamente o cenário visual e ecológico das propriedades, já que as áreas antes ocupadas por pastagens passaram a abrigar sistemas produtivos mais diversos.

“Hoje a gente olha pela janela e não vê mais o amarelado do capim, moramos no meio da floresta”, destaca.

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