Resumo
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A Fazenda Monte Castelo, em Castanhal (PA), transformou mais de 60 anos de pecuária extensiva tradicional num modelo sustentável de Sistemas Agroflorestais (SAFs), liderado pelo ex-dentista Osny Ramos desde 2019.
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O sistema consorcia o cultivo de cacau com açaí, pimenta-do-reino e baunilha de Madagascar. Com irrigação suspensa e adubação 70% orgânica (vinda da própria pecuária), a fazenda recuperou solos degradados e prevê produção 100% orgânica até 2027.
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O investimento na fermentação das amêndoas rendeu a medalha de ouro no festival Chocolat Amazônia 2024. O sucesso impulsionou o lançamento da Caupé, uma marca de chocolates tree-to-bar, apresentada no Salon du Chocolat em Paris no fim de 2025.
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Com uma área de 22 hectares e previsão de colher 35 toneladas de amêndoas, o projeto firmou uma parceria com uma comunidade quilombola vizinha, cedendo 5 mil mudas de cacau e oferecendo treinamento técnico para os moradores
Por Tereza Coelho
Unir a recuperação do bioma amazônico ao desejo de estruturar um negócio financeiramente viável foi o ponto de partida para transformar a Fazenda Monte Castelo, em Castanhal (PA). O espaço, que por mais de seis décadas abrigou a criação extensiva de gado, agora serve de palco para um modelo agrícola que prioriza o meio ambiente.A mudança foi liderada pelo ex-dentista Osny Ramos, que após deixar a profissão por problemas de saúde, encontrou no chão da floresta um caminho inovador de recomeço.
A transformação da fazenda, que começou em 2019. O que antes era um espaço dominado pela pecuária tradicional passou a ser redesenhado com base em sistemas agroflorestais, aproximando produção agrícola e recuperação ambiental. A inspiração veio de um técnico da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), que apresentou o potencial do cultivo de cacau como alternativa sustentável para a região.
Para a Semana do Meio Ambiente, o Pará Terra Boa conversou com o produtor, que relembra que observava a movimentação do mercado e, diante da necessidade de mudar de profissão, só havia uma certeza: o negócio precisava ser sustentável.
“O mundo está passando por transformações muito profundas para achar que dá para começar um negócio de qualquer jeito. Embora eu já soubesse que o futuro estava nos negócios sustentáveis, quando ouvi sobre o potencial regenerativo do cacau em Sistemas Agroflorestais (SAFs) pela primeira vez, algo aconteceu. Foi aí que veio o sinal de que este era o caminho certo”, relembra.
Após a decisão inicial, Osny passou a compreender melhor as etapas de criação e estruturação de uma SAF e, ao observar a propriedade, viu seu projeto começar a ganhar forma.
“Precisávamos escolher as culturas que fariam parte da SAF junto com o cacau e, depois de muita observação, chegamos ao açaí, por ser abundante, totalmente adaptado ao local, fazer parte da paisagem diária e ainda gerar um lucro extra por ser muito valorizado”, diz.
Ele aponta ainda que há uma pequena área dedicada à pimenta-do-reino, mas que o cacau e o açaí ocupam os principais espaços. Para o empresário, a experimentação contínua faz parte do fortalecimento do sistema de plantio, ampliando a possibilidade de novos negócios.
“É como um quebra-cabeça: se as culturas forem bem alinhadas, geram diversos ciclos de colheita ao longo do ano, gerando uma renda mais estável”, afirma.
Recuperação do Solo
Osny cita ainda que essa não é a primeira vez que a pimenta-do-reino é plantada no local. Ele comenta que o sogro, pesquisador aposentado da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), chegou a cultivar a especiaria por alguns anos, mas a degradação do solo impediu resultados melhores.
“Tentamos por alguns anos, enquanto iniciávamos as SAFs, mas não deu certo. A história está ressurgindo agora, graças aos resultados iniciais da recuperação do solo. Foi possível reajustar um pouco da pecuária e do plantio da pimenta”, diz.
O modelo adotado na propriedade aposta em irrigação eficiente e manejo cuidadoso do solo. Mangueiras suspensas garantem a distribuição de água, enquanto a adubação orgânica, em grande parte proveniente da própria atividade pecuária, ajuda a manter a fertilidade. Esse ciclo fechado reduz desperdícios e contribui ainda mais para a consolidação do sistema regenerativo.
“O reaproveitamento do material da pecuária é responsável por cerca de 70% da adubação do que plantamos atualmente. Só no cacau, por exemplo, cada pé recebe 60 kg de adubo orgânico por ano. Se tudo der certo, entraremos em 2027 com produção 100% orgânica”, antecipa.
Ponto de virada
Enquanto produzia o equivalente a 1.700 quilos de cacau por hectare, Osny começou a fabricar cacau fermentado sem saber que boa parte dos produtores locais comercializava a amêndoa não fermentada. Ao perceber essa diferença, tomou uma decisão que poderia impulsioná-lo no mercado.

“Mandei uma amostra para um festival estadual de qualidade de amêndoas, em 2024, e ganhei o ouro. Fiquei impressionado, porque era uma aposta muito alta que trouxe um retorno imenso, graças a Deus. Isso chamou tanta atenção que lançamos a Caupé, nossa marca de chocolates ancestrais, já no ano seguinte, no fim de 2025”, conta.
A Caupé foi lançada em pleno Salon du Chocolat, em Paris, sob o conceito de marca “tree-to-bar”, nome dado às empresas que controlam todo o processo de produção do chocolate, desde o plantio e cultivo do cacau até a fabricação da barra final, garantindo rastreabilidade total, sustentabilidade e alta qualidade.
“Foi a realização de um sonho. Fazemos vendas para dentro e fora do estado, além de produzirmos eventos com nosso chocolate. Em breve, espero estar dando um passo além e anunciando mais essa novidade”, diz.
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Crescimento conjunto
Com o aumento da demanda pelo chocolate, o empresário começou a investir em uma pequena agroindústria fora da fazenda para o processamento do cacau, devido às limitações no fornecimento de energia. Ainda em 2025, firmou uma parceria com uma comunidade quilombola vizinha para realizar um teste de plantio adensado de cacau. A aposta agora é aumentar a produtividade por hectare.
“Nós já temos uma parceria de anos, e este passo consolida tudo isso. O presidente do quilombo trabalha na fazenda há décadas, e parte dos nossos funcionários é de lá. Essa união mostra que, quando plantamos o que é bom, frutifica”, afirma.
Ao todo, ele cedeu 5 mil mudas para o plantio em estacas, executado em 1 hectare do quilombo. Além disso, parte da comunidade recebeu treinamento técnico para monitorar a produção.
“Como uma parte deles já trabalha conosco, alguns já conhecem os processos. Agora, outros foram treinados, o que vai gerar uma equipe ainda mais qualificada. Estamos semeando nossos parceiros”, declara.
Em expansão
Osny revelou também que iniciou testes de plantio de baunilha de Madagascar à sombra do cacau. Ele estima que, junto ao açaí e ao cacau, a baunilha pode ajudar a gerar renda de até R$ 200 mil por hectare.
Hoje, a área já convertida para o sistema agroflorestal ocupa 22 hectares e continua em expansão. O plano é ampliar o consórcio de espécies, incluindo árvores de grande porte, como andiroba e castanheira. Fora isso, a aproximação da estrutura da própria floresta deve ajudar a aumentar a produção de amêndoas já neste ano, subindo de 32 para 35 toneladas.
“Estamos construindo um bom caminho para o meio ambiente, para a remuneração justa e para o uso da sustentabilidade como princípio. Se você cuida bem da terra, ela retribui, e isso já vejo ano após ano. A restauração total da área promete um futuro ainda mais promissor para todos nós”, conclui.


