Resumo
- Moradores do oeste do Pará temem uma nova seca extrema no segundo semestre, com a previsão de 90% de chance de ocorrência de um Super El Niño, segundo o Inmet.
- A seca pode reduzir o nível dos rios, provocar escassez de água potável, isolar comunidades e aumentar os incêndios florestais.
- No território Kumaruara (10 aldeias e ~1,2 mil famílias), os efeitos das secas de 2023 e 2024 ainda persistem, afetando o abastecimento de água e secando igarapés.
- O fenômeno ocorre pelo aquecimento atípico do Oceano Pacífico e enfraquecimento dos ventos alísios, alterando a circulação atmosférica e inibindo chuvas na Amazônia e no Nordeste.
- : A frequência de super El Niños tem aumentado nas últimas décadas devido ao aquecimento global.
- Lideranças locais destacam o monitoramento territorial, o combate ao desmatamento e a preservação dos rios e florestas como indispensáveis para garantir a água e a vida na região.
A potencial chegada de um novo super El Niño na segunda metade deste ano vem gerando grande apreensão entre moradores ribeirinhos no oeste do Pará. Com estimativas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontando 90% de probabilidade para a ocorrência do fenômeno e chuvas abaixo da média para o Norte do país, o temor é de que a estiagem repita ou até supere os danos vivenciados recentemente, como a queda no nível dos rios, a falta de água potável, o isolamento das comunidades e a alta nas queimadas.
De acordo com reportagem do g1, a apreensão já é rotina no território indígena Kumaruara, situado às margens do rio Tapajós. Aderindo à gestão de dez aldeias que abrigam cerca de 1,2 mil famílias, a coordenadora Zenilda Kumaruara ressalta que os impactos das secas severas de 2023 e 2024 ainda persistem.
“Em 2023 e 2024, a situação complicou ainda mais. Até agora ainda não conseguimos resolver o problema da água. Recebemos água potável de outra comunidade e, quando chega o período de verão, esse abastecimento não acontece da mesma forma que no inverno”, relata.
Além dos gargalos no abastecimento transportado, a diminuição no volume dos rios e igarapés regionais preocupa a liderança indígena. Para ela, a manutenção da floresta em pé é a principal ferramenta de sobrevivência das comunidades.
“A gente procura plantar e fazer o monitoramento territorial para que a nossa floresta não seja destruída, porque sabemos que a água da Amazônia depende das árvores. Se houver desmatamento, essa água vai faltar. Os igarapés têm secado, e eles são fonte de água potável para as comunidades”, afirma.
O que dizem os técnicos
Os alertas emitidos pelos moradores encontram amparo direto em análises científicas. O boletim climático do Inmet confirma a tendência de instalação do El Niño no Oceano Pacífico durante o segundo semestre, o que deve inibir o regime de chuvas em grande parte da Bacia Amazônica.
De acordo com o professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Lucas Vaz Peres, o fenômeno decorre do aquecimento atípico da superfície do Pacífico, o que altera a circulação atmosférica global.
“É um fenômeno acoplado entre oceano e atmosfera. O oceano acaba se aquecendo mais do que o normal em função da diminuição dos ventos alísios. Isso modifica a circulação atmosférica, conhecida como circulação de Walker, fazendo com que o ramo descendente fique sobre a Amazônia e reduza significativamente as chuvas na nossa região”, explica o pesquisador.
O pesquisador destaca ainda que, embora eventos extremos não sejam novos, a frequência dos episódios de super El Niño cresceu nas últimas décadas em razão das mudanças climáticas.
“O que se espera é uma redução das chuvas tanto na Amazônia quanto no Nordeste brasileiro. Isso diminui as precipitações nas cabeceiras dos rios, reduz o nível dos cursos d’água, dificulta o acesso das populações ribeirinhas aos serviços básicos e ainda aumenta o risco de incêndios florestais”, alerta.
Preservação como resposta
Diante das adversidades, os povos tradicionais veem na conservação ambiental seu principal escudo contra o clima extremo. Zenilda Kumaruara reforça que proteger rios e vegetação nativa é fundamental para assegurar a subsistência das próximas gerações.
“As pessoas precisam entender que preservar os rios e as florestas é preservar a própria vida. Muitos desses problemas são causados pelo próprio ser humano, que ainda não tem consciência da importância de cuidar do meio ambiente”, conclui.
Caso a previsão do super El Niño se concretize, o oeste paraense poderá vivenciar um quadro tão ou mais crítico que os anteriores, afetando de forma direta o suprimento de água, o tráfego hidroviário, o cultivo agrícola e a segurança dos moradores da região.


