Limpar a casa, trabalhar a terra ou simplesmente respirar o ar puro de onde se nasceu. Atividades simples do cotidiano tornaram-se fonte de insegurança para quem vive na floresta. Para pequenos agricultores, ribeirinhos e povos originários da Bacia Amazônica, o próprio modo de vida está sob ameaça, colocando essas comunidades, entre outras pelo mundo afora, na linha de frente dos impactos das mudanças climáticas na América do Sul.
A conclusão veio de um estudo liderado por cientistas da organização ambiental The Nature Conservancy (TNC) e publicado na revista Environmental Research: Health, apontando que o número de dias com calor extremo dobrou desde a década de 1950, ampliando os impactos sobre a saúde e a capacidade das pessoas de realizar atividades ao ar livre. A pesquisa fez um perfil de povos afetados pelo mundo e na América do Sul, a Bacia Amazônica teve o principal destaque.
O estudo analisou os limites fisiológicos e sociais de adaptação ao calor e concluiu que cerca de um terço da população mundial já enfrenta riscos crescentes devido às altas temperaturas. Entre os grupos mais vulneráveis estão os idosos, que têm menor capacidade de regular a temperatura corporal por meio da transpiração.
Recordes de calor
A tendência de aquecimento é reforçada pelo Serviço de Mudanças Climáticas do Copernicus (C3S), da União Europeia, apontando fevereiro de 2026 como o quinto mais quente já registrado no planeta.
Segundo o relatório, divulgado nesta terça-feira, 10, a temperatura média global atingiu 1,49 °C acima dos níveis pré-industriais, aproximando-se do limite de 1,5 °C estabelecido no Acordo de Paris como referência para evitar impactos climáticos mais severos.
No mesmo período, a temperatura média da superfície do mar chegou a 20,88 °C, a segunda mais alta já registrada para o mês.
Os dados fazem parte do conjunto ERA5, que reúne bilhões de medições coletadas por satélites, navios, aviões e estações meteorológicas ao redor do mundo.
Impactos cada vez mais intensos
Para os cientistas, esses eventos mostram que o aquecimento global já está alterando padrões climáticos em diferentes regiões pelo mundo.
Segundo Luke Parsons, principal autor do estudo sobre calor extremo, cada fração adicional de aquecimento tende a ampliar os impactos na vida das pessoas.
“O ano de 2024 nos deu uma prévia preocupante de como seria um mundo com 1,5 °C de aquecimento acima dos níveis pré-industriais. Isso deve fortalecer nossa determinação coletiva de evitar 2 °C ou mais”, afirmou.
No estudo, os especialistas sugeriram estratégias para reduzir impactos imediatos dessas mudanças, como a criação de sistemas de alerta para ondas de calor, ampliação de áreas de sombra nas cidades e proteção específica para idosos e trabalhadores expostos ao sol.
Entretanto, a pesquisa frisa que as medidas emergenciais são insuficientes sem um esforço global mais amplo e concreto para reduzir as emissões de gases do efeito estufa.
Sem esse esforço concreto, regiões como a Bacia Amazônica, o sudoeste e o sul da Ásia, além de partes da África Ocidental estariam condenados a enfrentar condições climáticas cada vez mais extremas nas próximas décadas.


