O Pará exportou mais de 60 mil toneladas de açaí em 2024 e mantém a liderança global da produção em 2025. Mas o sucesso econômico traz um desafio ambiental proporcional: o descarte do caroço. Atualmente, apenas 20% do fruto é aproveitado como polpa; os 80% restantes são resíduos que, até então, careciam de uma destinação nobre.
Para mudar essa realidade, nasceu o AmazonCel, o primeiro laboratório paraense dedicado à produção de celulose a partir da fibra do caroço de açaí. Instalado na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), o espaço utiliza tecnologia local para transformar o que era lixo em insumo industrial. As informações são do Portal Amazônia.
Diferente da indústria tradicional de papel, que utiliza o eucalipto, o AmazonCel foi projetado para trabalhar com insumos da região. O foco é a camada fina de fibra que envolve o caroço após a batida do fruto.
“Transformamos o que antes era resíduo em insumos de alto valor. É a floresta em pé para impulsionar um novo modelo de desenvolvimento sustentável”, afirma a professora Marta Chagas Monteiro, coordenadora do projeto INCT-Probiam.
O espaço conta com oito equipamentos capazes de realizar todo o processo, da extração da fibra até a formação do papel, dando um novo destino a um resíduo tão conhecido da região Amazônica.
Como o papel é fabricado?
A fibra utilizada é camada fina que envolve o caroço após a retirada da polpa. Diferentemente da maioria dos laboratórios brasileiros, que utilizam eucalipto como matéria-prima, o laboratório paraense foi pensado para utilizar insumos regionais, como forma de responder as demandas locais sobre geração de lixo e transformação de insumos.
O processo, que leva cerca de três dias após a coleta do caroço junto aos batedores, segue etapas rigorosas:
- Lavagem e Secagem: Preparação inicial do resíduo.
- Polpação: Cozimento sob alta temperatura e pressão.
- Depuração e Refino: Retirada de impurezas e tratamento para dar resistência e durabilidade à folha.
O laboratório agora testa a resistência mecânica e o comportamento do papel em contato com a água, visando atender indústrias de cosméticos, farmacêutica e alimentícia.
Inovação: Papel com óleos medicinais
O projeto também aposta na combinação do papel com óleos amazônicos conhecidos, como a copaíba e a andiroba. A ideia é conferir propriedades antifúngicas e antibacterianas ao material, que pode ampliar seu uso na indústria de cosméticos.
Futuramente, a iniciativa será ampliada em parcerias com o Laboratório de Tecnologia Farmacêutica e Cosmetologia (LTFC), instalado na Universidade Federal do Pará (UFPA) para levar o processo de transformação de resíduos agroindustriais para outras cadeias importantes do estado como cacau e pupunha.
Ciclo de Aproveitamento Total
A pesquisa garante que nada seja desperdiçado. Mesmo após a retirada da fibra para o papel, o “caroço limpo” ainda tem utilidade:
Cientificamente, ele possui alto potencial para geração de bioenergia e produção de biocarvão (biochar), mas além disso, o resíduo permite a criação de outras formas de geração de renda já divulgadas pelo Pará Terra Boa como a criação de tijolos, limpeza e tratamento de água, assim como revestimentos para construções de baixo impacto ambiental.
Desta forma, a integração da pesquisa científica, potencial econômico e envolvimento comunitário associados a tecnologia permitem a criação de modelos de produtos e negócios mais sustentáveis, aproveitando cada detalhe do que antes era destinado exclusivamente ao lixo, mas agora gera novas oportunidades.


