Imagine a seguinte situação: você tem seu pedaço de terra, trabalha de sol a sol, cuida do rebanho e depende da água do rio para ver sua lavoura prosperar. Um dia, essa água começa a secar. Em seguida, vem barrenta. E o pior: vem contaminada por mercúrio, um veneno que traz doenças graves, como o câncer.
A indignação é imediata, afinal, você não fez nada de errado. Mas alguém rio acima — que deveria cuidar do recurso que é de todos — usou a água sem responsabilidade. No Pará, essa história se repetiu várias vezes por causa do garimpo ilegal. A diferença é que, com regras claras, houve denúncia e a polícia pôde agir para conter o estrago.
Agora, pare e pense: e se vigiasse a lei do “cada um faz o que quer”?
Se a terra rio acima pudesse ser usada sem nenhum limite, você não teria a quem recorrer quando a água faltasse ou chegasse poluída na sua propriedade. Sem regras, a denúncia perde a força e a fiscalização fica de mãos atadas.
À primeira vista, a ideia de “fazer o que bem entender” na própria terra parece tentadora. Mas a conta dessa liberdade sem limites quase sempre sobra para quem está ao lado. O produtor rural do Pará conhece bem essa realidade na pele: sente o clima cada vez mais quente, enfrenta chuvas irregulares pelo desmatamento sem controle e vê até cartões-postais, como Alter do Chão, perderem a pureza de suas águas.
No fim das contas, a reflexão que fica para quem vive do campo é simples: se cada um puder fazer o que quiser sem prestar contas, como fica a segurança de quem trabalha honestamente?


