Esqueça a ideia de que produzir e conservar são lados opostos de uma mesma moeda. No Pará, uma nova dinâmica começa a brotar no campo, onde o agricultor deixa de ser apenas um produtor para assumir o papel de guardião da floresta — e, mais importante, ser reconhecido e remunerado por isso. Sob a batuta da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas), o Governo do Pará tem avançado com o projeto-piloto Valoriza Territórios Sustentáveis, a engrenagem que prepara o terreno para o Programa Estadual de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).
A estratégia é clara: reconhecer que o produtor rural e o agricultor familiar prestam um serviço essencial à sociedade ao cuidar das áreas nativas. O projeto não apenas estimula a adoção de práticas produtivas que gerem benefícios sociais e ambientais, como também ajuda a regularizar ambientalmente os imóveis.
O resultado é um desenvolvimento econômico que caminha de mãos dadas com a proteção da floresta.
Hoje, 235 famílias estão sendo beneficiadas diretamente, com cerca de 1.300 elegíveis. Ao todo, o projeto soma mais de R$ 1,3 milhão investidos em ações que giram a chave para a valorização dos serviços ambientais em território paraense.
Para além do incentivo financeiro, o projeto é um suporte completo. Ele atua na recuperação florestal — focando especialmente em Áreas de Preservação Permanente (APPs) e na correção de passivos ambientais — e estimula sistemas produtivos sustentáveis, como os Sistemas Agroflorestais (SAFs), que promovem maior eficiência com baixo carbono. O suporte técnico é gratuito e inclui validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), orientação produtiva e abertura de caminhos para crédito rural.
O público prioritário são agricultores familiares e produtores com até quatro módulos fiscais. Para integrar o sistema, eles assumem termos de adesão que envolvem recuperação de APPs, manutenção da vegetação nativa, conservação e boas práticas florestais. A expectativa do Estado é que esses produtores estejam plenamente preparados para atuar como provedores de serviços ambientais, fortalecendo o ordenamento territorial.
O impacto nas propriedades
Em São Félix do Xingu, o produtor Oswaldo Wagner, que trabalha com cacau e pecuária, relata que a iniciativa trouxe um novo olhar para sua terra.
“O programa chegou aqui por um trabalho conjunto. Eu fui um dos pioneiros aqui da região a participar”, conta.
Oswaldo reforça que o apoio financeiro foi o empurrão que faltava para elevar o patamar da conservação em sua área.
“A gente já tinha uma noção de preservar, mas passou a preservar com mais cuidado e teve um incentivo financeiro que ajudou”, explica.
Para ele, o novo modelo é uma necessidade vital.
“Hoje nós estamos em uma área que não pode fazer derrubada. A gente tem que trabalhar em cima do que tem. Então a ajuda nesse sentido é importante”. O produtor não tem dúvidas sobre o futuro: “Hoje é possível produzir e preservar o meio ambiente, sem sombra de dúvida”.
Em Novo Repartimento, Maria Gorete Rios, do Sítio Rancho da Pedra, também colhe resultados. Com uma produção diversificada que inclui gado, açaí e cacau, ela viu no PSA a oportunidade de estruturar melhor o que já preservava.
“Eu já tinha consciência de preservar as APPs, mas o dinheiro do PSA permitiu cercar algumas áreas, e ainda quero cercar outras”, diz.
Para ela, a proteção ambiental gerou ganhos práticos no dia a dia.
“As APPs estão protegidas e isso garante água para os animais e protege as nascentes”, observa
.Além disso, ela afirma, o manejo melhorou:,
“Com as áreas cercadas, melhora o manejo do gado e fica melhor tanto para a produção quanto para o meio ambiente”. A produtora resume sua experiência com otimismo: “É possível e rentável preservar produzindo. Aqui tenho essa experiência”.
A visão de futuro
Para a gestão estadual, esses relatos não são isolados, mas parte de uma política pública estruturada. Renan Batista, analista ambiental da Semas e gestor do projeto, destaca que a iniciativa é uma etapa estratégica.
“O Projeto Valoriza Territórios Sustentáveis é uma etapa estratégica para estruturar o Programa Estadual de Pagamento por Serviços Ambientais. Estamos demonstrando, na prática, que é possível reconhecer e remunerar quem preserva, ao mesmo tempo em que fortalecemos a produção rural sustentável e o ordenamento territorial no Pará”, afirma.
A meta agora é escalar.
“Nosso objetivo é preparar os produtores e agricultores familiares para atuarem como provedores de serviços ambientais, garantindo segurança jurídica, apoio técnico e geração de renda associada à conservação”, finaliza Batista.
Com esse modelo, o Pará busca consolidar uma economia rural onde a valorização de quem preserva é o motor principal para uma floresta em pé e produtiva.


