Resumo
- Iniciativa liderada pelo IPAM apoia cerca de 70 agricultores familiares na recuperação de 750 hectares de áreas degradadas em 19 municípios paraenses.
- A regularização ambiental resolve o passivo da Reserva Legal (que na Amazônia deve ser de 80%), devolvendo ao produtor o acesso a linhas de crédito e assistência rural.
- O projeto utiliza Sistemas Agroflorestais (SAFs), consorciando espécies nativas com culturas comerciais de alto valor agregado, como cacau e açaí, para gerar renda sustentável.
- Diante da previsão de um novo El Niño no segundo semestre de 2026, os agricultores recebem orientações técnicas para proteger o solo e o cultivo contra a forte estiagem.
- As mulheres representam mais de 30% dos produtores beneficiados, ganhando destaque e autonomia econômica na gestão das propriedades.
No momento em que se celebra a Semana Nacional do Meio Ambiente, um projeto de restauro produtivo no Pará ganha destaque ao mostrar que a preservação da Amazônia pode andar de mãos dadas com a lucratividade da agricultura familiar.
A iniciativa apoia produtores locais na recuperação e na regularização ambiental de suas propriedades, transformando o cumprimento das leis ecológicas em uma oportunidade real de geração de renda no campo.
Desde o ano passado, a ação intitulada “Restauração florestal na Amazônia: recuperação de áreas alteradas no Estado do Pará”, desenvolvida pelo Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), trabalha com cerca de 70 produtores espalhados por 19 municípios paraenses.
Ao todo, o projeto está recuperando 750 hectares de áreas degradadas que antes eram ocupadas por pastagens ou cultivos irregulares.
O peso do Código Florestal e o acesso ao crédito
De acordo com o Código Florestal Brasileiro, as propriedades rurais localizadas na Amazônia Legal precisam conservar 80% da sua vegetação nativa como Reserva Legal. O desmatamento dessas áreas — muitas vezes realizado para a abertura de pastos ou por puro desconhecimento da legislação — deixa os imóveis em situação irregular perante os órgãos ambientais.
Além do impacto legal, a perda da cobertura vegetal compromete serviços ambientais essenciais, como a formação de chuvas, a regulação do microclima e a própria regeneração do solo.
Para o pequeno produtor, o prejuízo de ter um passivo ambiental na propriedade vai além do dano à natureza: a falta de regularização impede o acesso a programas de crédito bancário, financiamentos oficiais e assistência rural.
Com a chegada do projeto, esses produtores, que antes estavam desassistidos e sem capital para investir na lavoura, passam a enxergar na recuperação ambiental e na produção sustentável uma oportunidade real de manter a propriedade lucrativa e protegida.
“Para a recuperação e a regularização ambiental dessas áreas, usamos três técnicas: regeneração natural, enriquecimento de capoeira e implantação de sistemas agroflorestais, de acordo com as necessidades de cada propriedade. Esses imóveis regularizados passam a permitir que o produtor tenha acesso a políticas públicas, enquanto os sistemas produtivos possibilitam a produção de alimentos e a comercialização de produtos com maior valor agregado, gerando renda e estabilidade para as famílias”, explica Edivan Carvalho, pesquisador e coordenador do IPAM no Pará.
A iniciativa faz parte do projeto amplo “Regulariza Rural”, coordenado pelo SFB (Serviço Florestal Brasileiro) e pelo IICA Brasil (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura). A ação conta ainda com a parceria da SEMAS/PA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade) e tem o apoio financeiro do KfW (Banco de Desenvolvimento Alemão), instituição que também participa das visitas de monitoramento e do acompanhamento da implementação dos SAFs (sistemas agroflorestais).
Dentro do cronograma, foram entregues mudas e insumos para os cultivos, além de vistorias técnicas para acompanhar os plantios e orientar os produtores na adoção de técnicas modernas e sustentáveis.
O potencial econômico do cacau e do açaí
Os dados do Termômetro do Código Florestal apontam que o Pará possui, sozinho, um passivo de 17 milhões de hectares de Reserva Legal. Diante desse cenário, as experiências de restauro produtivo — que combinam a recuperação de áreas com espécies florestais e frutíferas comerciais, como o cacau e o açaí — têm mostrado resultados muito positivos tanto no controle do desmatamento quanto na geração de receita para as comunidades rurais da Amazônia.
Baseado no Código Florestal Brasileiro e em decretos do governo estadual, o produtor que possui passivo de Reserva Legal pode fazer o restauro utilizando o cacau na composição do sistema. Esses modelos misturam espécies florestais e produtivas, criando paisagens mais resilientes e perfeitamente adaptadas à realidade econômica da região.
“Essa área vai ajudar muito na nossa renda e na regularização da nossa terra. Estamos esperando colher toneladas de açaí e cacau, além das outras frutas e essências florestais que vão crescer aqui. Também será muito importante para minha família porque, daqui a 10 ou 20 anos, meus filhos ainda poderão trabalhar essa área da maneira correta e entender que é possível produzir de forma consciente”, comenta Jailson Marques Reis, produtor do município de Tomé-Açu, que recebeu mais de 7 mil mudas através da iniciativa.
Preparo contra as mudanças no clima e o El Niño
Durante as visitas técnicas realizadas pelas equipes, os pesquisadores ouviram relatos frequentes sobre a preocupação dos agricultores com a chegada de períodos de seca cada vez mais intensos, longos e imprevisíveis.
Com a perspectiva de um super El Niño previsto para o segundo semestre de 2026, os produtores foram orientados sobre práticas para minimizar os impactos da forte estiagem e sobre a necessidade de sistemas de irrigação adequados.
Vale lembrar que no último evento de El Niño, entre 2023 e 2024, uma seca histórica castigou a região, gerando uma temporada recorde de queimadas que afetou gravemente pastagens e áreas de vegetação nativa.
“Nestes últimos anos, o clima mudou bastante. No verão, o sol está muito forte, as temperaturas estão mais altas e isso faz com que a gente precisa aumentar a quantidade de água nas plantas. Estamos usando cobertura morta e o consórcio de cacau, que deixa muitas folhas no chão e protege o solo. Assim, durante o verão, conseguimos manter o solo úmido por mais tempo”, explica o produtor Jailson.
Por causa do aquecimento global e do aumento da temperatura dos oceanos, o fenômeno El Niño tende a se tornar mais frequente. Antes, os episódios ocorriam em média a cada cinco anos; agora, o super El Niño de 2026 está projetado para acontecer menos de três anos após o último ciclo.
Na Amazônia, o fenômeno enfraquece o período de chuvas e severiza a seca, deixando a vegetação muito suscetível ao fogo. Por isso, técnicas como o preparo correto do solo, o uso de sistemas agroflorestais e a suspensão total do uso do fogo são ferramentas fundamentais defendidas pelo projeto para proteger o pequeno produtor.
Liderança e representatividade feminina no campo
A forte presença feminina é outro ponto de destaque na execução do projeto, já que as mulheres somam mais de 30% do total de beneficiados pela iniciativa. Ginelda Lima, também moradora de Tomé-Açu (PA), ressalta que sua entrada no programa foi um divisor de águas para ampliar sua autonomia no campo.
“Sou filha de agricultores e nasci agricultora. Esse é um sonho de menina, e para ele crescer a gente precisa caminhar junto, como uma planta que precisa ser adubada. Aqui vai ter 2.500 plantas como açaí, cacau, cumaru, acapu e piquiá, e elas serão minha aposentadoria”, celebra a produtora.
O reconhecimento do trabalho das mulheres do projeto também ecoa fora do estado. Em março deste ano, a agricultora Carmem Lúcia Barbosa esteve em Brasília participando da mostra “O Brasil das Florestas: 20 anos do Serviço Florestal Brasileiro”, onde foi homenageada como exemplo de proatividade, iniciativa e produção sustentável na Amazônia.
“A nossa cabeça muda muito. A gente aprende a plantar de verdade. Eu já tinha algumas mudas, mas foi o projeto que deu o empurrão final. No começo, o pessoal que mora comigo achava que era só conversa, que não valeria a pena, mas agora todos temos uma visão diferente e percebemos que dá, sim, para produzir recuperando a área e sem desmatamento. Agora as pessoas vêm me perguntar como fazer para começar e como se organizar para realizar o restauro”, destacou Carmem Lúcia durante o evento na capital federal.
Fonte: Ipam


