Enquanto o Brasil acelera para consolidar o chamado “Arco Norte” como a principal saída das exportações do agronegócio, o estado do Pará vive um momento de tensão em suas duas maiores bacias hidrográficas. Embora os projetos das hidrovias do Tapajós e do Tocantins-Araguaia compartilhem o objetivo de escoar recordes de safra rumo ao mercado internacional, eles representam desafios de engenharia e impactos sociais distintos, unidos por uma denúncia comum: o atropelo dos direitos das populações tradicionais.
No oeste paraense, a Hidrovia do Tapajós enfrenta uma resistência ferrenha de povos indígenas e ribeirinhos. O foco do conflito é o edital lançado em dezembro de 2025 pelo governo federal para a dragagem de manutenção entre Santarém e Itaituba, de acordo com reportagem do site Nexo.
Para viabilizar a passagem de comboios das gigantes do setor, como Cargill e Bunge, o projeto prevê a sucção de sedimentos em pontos críticos do leito.
Lideranças como Auricelia Arapiun denunciam que a obra avança sem Estudo de Impacto Ambiental (EIA/Rima) e sem respeitar a Convenção 169 da OIT, que exige a consulta prévia às comunidades. De acordo com ela, os 250 quilômetros de escavação previstos causarão danos irreversíveis.
“Os impactos trazem muitos prejuízos para a população, para o rio, para os peixes, para a vida aquática. A gente está falando de um rio que já é altamente comprometido por ameaças como a contaminação mercurial”, afirma.
Além da questão ambiental, Auricelia ressalta o impacto espiritual: “Vai mexer no fundo do rio e vai mexer na morada sagrada dos nossos encantados, dos espíritos”.
Impacto ainda mais agressivo
Já no sudeste do estado, a Hidrovia Tocantins-Araguaia apresenta um cenário de impacto ainda mais agressivo e tecnicamente avançado. Ali, o projeto central é o derrocamento do Pedral do Lourenço, que consiste na explosão de 35 km de formações rochosas para abrir um canal de navegação permanente.
Diferente do Tapajós, onde a intervenção é no sedimento, no Tocantins a obra destrói berçários naturais de peixes. A pesca está diretamente associada às rochas. As pedras são esconderijos para espécies como o tucunaré. O mapará, um dos peixes mais apreciados na região e em outros estados para onde é vendido, como Maranhão, Bahia e Tocantins, é farto em áreas do pedra
De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, As eclusas da Usina de Tucuruí já operam em ritmo acelerado, tendo movimentado 36 barcaças carregadas de soja apenas em 2025.
Ribeirinhos da Vila Tauiri relatam que o tráfego pesado não só afasta o pescado, como trouxe a praga do mexilhão-dourado, uma espécie invasora que fere os pescadores e apodrece sobre as pedras durante a seca.
“Essas barcaças que já estão passando impedem a gente de pescar. A gente pesca na modalidade ‘caceia’ [a rede é disposta no rio e se move no curso da água, acompanhada pelo pescador], e é preciso tirar a rede quando as embarcações passam, para evitar o prejuízo”, afirma Ronaldo Barros Macena, presidente da associação de ribeirinhos da Vila Tauiri, a maior do Pedral do Lourenço, à Folha.
O que um tem a ver com o outro
A conexão entre os dois projetos foi selada pelo Decreto nº 12.600/2025, que incluiu ambos no Programa Nacional de Desestatização (PND). Juridicamente, os processos seguem ritmos diferentes: no Tocantins, a Justiça Federal já liberou as obras mediante indenizações financeiras aos pescadores, enquanto no Tapajós a batalha ainda se dá na fase de licitação e na exigência de protocolos de consulta.
Para os movimentos socioambientais e o Ministério Público Federal, o que ocorre é a transformação de rios vivos em “rodovias hídricas”.
Se por um lado o governo federal e o DNIT defendem que as intervenções são “transformadoras e positivas” para a economia e para enfrentar as secas extremas, por outro, os povos da floresta alertam que o custo dessa eficiência logística pode ser a “morte” dos rios e o extermínio de modos de vida seculares que dependem do equilíbrio entre a água e o solo — seja ele feito de areia no Tapajós ou de pedra no Tocantins.


