Resumo
- A grave crise de incêndios no Norte do Brasil é alimentada pela seca extrema do El Niño e pela ação humana, investigada como a principal responsável pelo início do fogo.
- Entre setembro e outubro, a Amazônia concentrou mais da metade dos focos de calor do país (15.449 focos), com destaque para o estado do Pará e um avanço expressivo no Amapá.
- Mais de 1,14 milhão de pessoas no Amazonas foram afetadas pelos incêndios (701 mil em Manaus), e dezenas de municípios decretaram emergência por seca ou sofreram com tempestades.
- Autoridades investigam suspeitas de queimadas organizadas (como o “Dia do Fogo”), sujeitando infratores a multas de até R$ 10 mil por hectare, embargo de terras e prisão.
- A poluição extrema provocou a suspensão de aulas presenciais em Manaus, dependendo das condições de ventos para a dispersão da fumaça.
- O governo federal mobilizou aeronaves, brigadistas e apoio logístico, logrando extinguir 292 incêndios no Amazonas e reduzindo gradativamente novos focos.
- Além de medidas individuais de proteção (como uso de máscaras PFF2), a solução exige combate às queimadas ilegais, fiscalização rigorosa e políticas públicas contínuas.
O Norte do Brasil enfrenta uma grave crise socioambiental provocada por uma combinação fatal: de um lado, o fenômeno El Niño, que intensifica a seca e eleva as temperaturas sobre um território vulnerável aos extremos climáticos; de outro, a ação humana, apontada pelas autoridades como a principal causadora do início dos incêndios.
A dimensão dessa crise é evidenciada nos registros do satélite de referência do INPE, que identifica focos de calor como pontos de temperatura anormalmente alta — indicador que aponta o avanço do fogo (especialmente em áreas agropecuárias), embora não meça a área queimada nem equivalha ao número exato de incêndios.
Entre 13 de setembro e 12 de outubro, a Amazônia registrou 15.449 focos de calor — número 2,4 vezes maior que no mesmo período de 2025 —, passando a responder por 53,1% dos focos do país. O Pará concentrou mais da metade desse total (7.984 focos) e o Amapá quase triplicou seus índices.
Nos primeiros doze dias de outubro, o país somou 12.649 focos (+4,4% ante 2025). A Amazônia concentrou 58,9% do total nacional (7.455 focos, ou 2,6 vezes mais que em 2025), impulsionada pelo Pará, com 4.397 focos no mês — superando todo o Cerrado, que teve queda de 40,9%. Apesar da alta recente, o acumulado anual do país ainda se mantém 5,5% abaixo de 2025.
As consequências humanas e ambientais já são profundas. Em 9 de outubro, 36 municípios do Amazonas registraram danos por incêndios no sistema da Defesa Civil nacional, somando 1,14 milhão de pessoas afetadas (701 mil apenas em Manaus), em registros que aguardavam reconhecimento federal.
Além disso, entre 12 de setembro e 12 de outubro, 135 municípios de 14 estados tiveram decretação de emergência por seca reconhecida (11 no Amazonas).
Investigação em curso
Se o clima atua como estopim, a origem das chamas tem sido investigada na esfera criminal. Durante coletiva em Manaus, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, reforçou que os focos têm origem na ação humana e prometeu punições exemplares contra ações organizadas, citando suspeitas semelhantes ao “Dia do Fogo” de 2024.
Até o momento, a força-tarefa no Amazonas abriu 120 Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs). As investigações envolvem as polícias Federal, Rodoviária Federal e Civil, com apoio da Abin (Agência Brasileira de Inteligência).
Quem provoca incêndios florestais está sujeito a multas de R$ 5 mil a R$ 10 mil por hectare, embargo de áreas, apreensão de equipamentos e prisão.
Avanços da força-tarefa
Apesar da gravidade, o governo relata avanços.Mais de 300 focos de incêndio florestal foram extintos, nos últimos cinco dias, pelas equipes da força-tarefa que atuam no combate às chamas que atingem o Amazonas.

Após o pico de 494 novos focos, no dia 10 de outubro, o estado registra nesta sexta-feira (16) 188 focos de incêndio, segundo o painel Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, atuam na força-tarefa 330 brigadistas em equipes coordenadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Também foram deslocadas para o estado 11 aeronaves, além de 32 veículos terrestres e oito embarcações.


