Resumo
- A Amazônia teve em 2025 a menor área queimada em 41 anos, com 3,1 milhões de hectares, um ano após o pico da série histórica, que foi de 15,8 milhões em 2024.
- Em todo o Brasil, o fogo queimou 12,7 milhões de hectares no Brasil em 2025, uma redução de 58% em relação a 2024 e 31% abaixo da média histórica
- Mesmo com a queda no bioma, o Pará segue como o segundo estado que mais queimou no Brasil no acumulado de quatro décadas, com 31,6 milhões de hectares
- O estado concentra cinco das 15 cidades que mais queimaram no País, e São Félix do Xingu é o segundo município mais atingido, atrás apenas de Corumbá (MS)
- Na Amazônia, mais da metade do fogo ocorre em áreas de uso humano, sobretudo pastagens, num padrão ligado ao uso da terra e diferente do resto do País
A Amazônia teve em 2025 a menor área queimada em 41 anos. O bioma teve 3,1 milhões de hectares (ha) destruídos pelo fogo ao longo do ano, cerca de um quinto do registrado em 2024, quando havia atingido o pico da série histórica, com 15,8 milhões de ha.
Os dados são da segunda edição do Relatório Anual do Fogo, do MapBiomas, divulgada nesta terça-feira, 21, e mostram que a queda na Amazônia puxou a retração do fogo em todo o Brasil, que com o recuo de 31%, voltou a um patamar historicamente mais baixo. A queda no País foi maior ainda maior se comparada a 2024: com 12,7 milhões de hectares no Brasil em 2025, a redução foi de 58% em relação ao ano anterior.
Foi a menor área queimada no País desde 2019. A redução, porém, não foi homogênea: enquanto a Amazônia despencou, o Cerrado seguiu como o bioma mais afetado, concentrando 69% de tudo o que queimou no Brasil em 2025.
São Félix do Xingu lidera no estado
No ranking da destruição, Pará ocupa a segunda colocação entre os estados que mais queimaram no Brasil nas últimas quatro décadas, com 31,6 milhões de ha acumulado., atrás apenas de Mato Grosso, onde as chamas destruíram 45,1 milhões de hectares (ha).
Nos últimos 41 anos, quase metade de toda a área queimada do País se concentra em três estados (Mato Grosso, Pará e Maranhão) e 11% está concentrada em 15 municípios.
Encabeçando a lista está São Félix do Xingu, com 3,12 milhões de ha, o segundo município que mais queimou no Brasil, atrás apenas de Corumbá (MS). Completam a lista paraense Altamira (1,55 milhão de ha), Cumaru do Norte (1,38 milhão), Novo Progresso (1,17 milhão) e Santana do Araguaia (1,01 milhão).
“Mais do que mostrar o quanto o Brasil queimou em um determinado ano, a série histórica do Mapbiomas Fogo permite entender como o regime de fogo está mudando ao longo do tempo. Saber onde o fogo é recorrente, com que frequência ele retorna, qual é sua severidade potencial e quais áreas estão queimando mais ou menos é essencial para definir prioridades, orientar ações preventivas e implementar, de forma mais eficiente, a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo.” destaca Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo.
Papel da agropecuária
De acordo com o MapBiomas, na Amazônia, mais da metade da área queimada ocorre em áreas de uso humano, sobretudo pastagens. É um comportamento diferente do restante do País, onde o fogo predomina em vegetação nativa: no total nacional, 71,5% do que queimou entre 1985 e 2025 foi em áreas naturais.
“Quando a gente olha o que foi queimado, grande parte não foram incêndios florestais. Foram principalmente áreas agrícolas, áreas de pastagem, que fazem parte do sistema produtivo da região”, explicou Ane Alencar.
Entre os usos ligados à produção, a pastagem é a classe que mais queima no País, respondendo por 23,1% de toda a área atingida.
Floresta pode não se recuperar
A queda de 2025 não apaga o histórico da floresta, fragilizada por décadas de desmatamento e queimadas. Segundo o relatório, na Amazônia 31,6% da área já queimada volta a pegar fogo em até dois anos, o intervalo de retorno mais curto entre todos os biomas do País.
“Na Amazônia, onde a vegetação não é adaptada ao fogo, intervalos tão curtos entre os eventos reduzem o tempo de recuperação da floresta e aumentam o risco de novos incêndios, mais intensos e degradantes”, diz Luiz Felipe Martenexen, pesquisador da equipe MapBiomas Fogo e do IPAM.
Na prática, cada passagem do fogo deixa a floresta mais aberta e mais seca, o que facilita a entrada da próxima queimada. Sem tempo para se recuperar, a mata vai perdendo a capacidade de se regenerar.
“Na Amazônia, os estudos demonstram que o retorno do fogo deveria acontecer, dependendo do tipo de vegetação, num intervalo de 200 a 1.000 anos. Isso significa que a floresta vai precisar de um tempo para se recuperar depois desse distúrbio. Assim como o cerrado precisa, em média, de 6 a 12 anos entre fogos” ressalta Ane.
E o impacto vai além da região: a degradação da floresta compromete a umidade que a Amazônia envia para outras partes do País, afetando o regime de chuvas que sustenta lavouras no Centro-Sul.
Alerta em ano de El Niño
A série histórica ajuda a entender por que a queda de 2025 preocupa mesmo sendo boa notícia. Segundo os pesquisadores, os anos de El Niño concentram as maiores áreas queimadas, e o pior costuma vir depois. Diante das previsões para este ano, Ane reforça a necessidade de preparação para os próximos ciclos.
“Nos anos de El Niño, quando o fenômeno começa, normalmente a área queimada já é maior. Mas é o ano seguinte que tem o maior impacto”, explicou Alencar. Ela reforça que o alerta vale desde já: “A gente tem que se preparar mesmo para este ano, porque a inflamabilidade da paisagem é um dos elementos importantes para que o fogo aconteça e se propague.”


