Resumo
- O mercado global de açaí gera desenvolvimento econômico para as comunidades da Amazônia, mas o cultivo intensivo inflaciona o consumo local e prejudica a biodiversidade.
- Um estudo na revista Biological Conservation apontou uma queda de 28% nas espécies de aves em cultivos adensados de açaí no Pará.
- Para facilitar a colheita, produtores removem a vegetação nativa e o sub-bosque. Isso causou a redução de várias espécies de aves.
- O biólogo Raphael Nunes alerta que, sem essas aves e insetos para polinizar e dispersar sementes, a floresta não se renova e o solo torna-se mais seco.
- O Pará concentra 89,5% da produção nacional (que chegou a 1,9 milhão de toneladas em 2024). As exportações paraenses saltaram de 1 tonelada em 1999 para mais de 60 mil toneladas em 2023, melhorando a renda e o acesso a serviços básicos de famílias ribeirinhas na safra.
- Com o escoamento para o exterior, o preço do litro do açaí grosso (alimento diário e essencial na região) disparou em Belém, custando entre R$ 41 e R$ 65 e ameaçando a segurança alimentar de famílias de baixa renda.
- O pesquisador Hervé Rogez explica que produtores estão eliminando árvores nativas para priorizar o açaizeiro, o que desequilibra o ecossistema de várzea e afasta polinizadores.
- Denise Acosta (Sindifrutas) defende que o consumo do açaí mantém a floresta em pé, pois a palmeira precisa de sombra e biodiversidade para prosperar. Como solução, o setor aposta no cultivo consorciado com cacau, banana e mandioca.
O sucesso global do açaí desenha um cenário de contrastes na Amazônia. Se por um lado a valorização internacional da fruta funciona como um motor de desenvolvimento social e econômico para milhares de famílias de ribeirinhos, por outro, o crescimento acelerado da cadeia produtiva acende alertas sobre a inflação do alimento na região de origem, os impactos ecológicos do cultivo intensivo e as ameaças das mudanças climáticas.
Um estudo publicado na Biological Conservation revelou que áreas de cultivo adensado de açaí no Pará apresentam uma queda de 28% no número de espécies de aves.
Para mapear este impacto, os investigadores realizaram um minucioso levantamento acústico em 36 áreas de cultivo nos municípios de Belém, Barcarena, Abaetetuba e Igarapé-Miri (conhecida como “a capital mundial do açaí”)
E descobriram que aves como o beija-flor rabo-branco-de-bigodes e o tucano-de-papo-branco viram as suas populações encolher, Isso acontece porque, para facilitar a colheita, produtores limpam a vegetação nativa e o sub-bosque.
Aves de grande porte, como o mutum-cavalo, e espécies sensíveis à perda de floresta contínua, como o anambé-una já desapareceram das áreas de cultivo estudadas. Apenas espécies generalistas e altamente adaptáveis à presença humana, como o bem-te-vi registaram um aumento populacional.
Pesquisador da Universidade Federal do Pará e um dos coautores do estudo, Raphael Vasconcelos Nunes disse ao Mongabay que a retirada da vegetação nativa para dar lugar ao açaí gera uma “bola de neve”: sem aves e insetos para polinizar e dispersar sementes, a floresta perde a capacidade de se renovar, e o solo exposto torna-se cada vez mais seco.
O boom econômico e o impacto social
Essa pressão sobre a floresta é movida pelo mercado internacional. A produção de açaí atingiu 1,9 milhão de toneladas em 2024. No Pará (que concentra 89,5% da produção nacional), as exportações saltaram de 1 tonelada em 1999 para mais de 60 mil toneladas em 2023, movimentando quase R$ 9 bilhões.
Esse dinheiro transformou a realidade de famílias ribeirinhas isoladas, cujas rendas saltaram de menos de um salário mínimo para até dez salários durante a safra, melhorando o acesso a energia, internet e educação.
O outro lado da moeda pesa no bolso local, como mostra a reportagem do DW Com o escoamento da produção para atender à demanda externa, os preços dispararam no mercado interno. Segundo levantamento do Dieese Pará, o litro do açaí grosso chegou a ser comercializado a valores entre R$ 41 e R$ 65 em Belém no início deste ano, dificultando o acesso de famílias de baixa renda a um item essencial de sua dieta e cultura.
Monocultura progressiva x floresta em pé
Além da biodiversidade, a rápida expansão das exportações divide opiniões sobre o impacto ambiental da atividade. O professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) Hervé Rogez, um dos pioneiros no estudo das propriedades nutricionais da fruta, alerta que, para aumentar a produção nas várzeas, muitos produtores estão eliminando outras espécies nativas para priorizar o açaizeiro.
Ele descreve o fenômeno como uma “monocultura progressiva”, que reduz a biodiversidade local.
“A ausência da biodiversidade faz com que muitos organismos desapareçam. Isso afeta desde os polinizadores até outras espécies que dependem dessas plantas”, explica ao DW.
Por outro lado, o setor produtivo contesta que o avanço do açaí signifique degradação. Denise Acosta, presidente do Sindifrutas, argumenta que grande parte da produção paraense ainda ocorre em áreas preservadas e sistemas agroflorestais.
“Ao consumir o açaí, você ajuda a manter a floresta em pé, porque colhe o fruto sem derrubar a árvore”, defende.
Ela destaca que a própria palmeira precisa de sombra, polinizadores e vegetação nativa para prosperar. Para reforçar esse equilíbrio, produtores apostam cada vez mais no cultivo consorciado com cacau, banana e mandioca.


