No coração do Médio Xingu, no sudoeste do Pará, um chocolate artesanal está se destacando não apenas pelo sabor, mas por por sua contribuição para o meio ambiente. A líder indígena Katyana Xipaya é a responsável pela marca de chocolates Sidjä Wahiü, selecionada pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) para integrar sua vitrine global de soluções sustentáveis.
O WBCSD – ou Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável — é uma organização global liderada pelos CEOs de mais de 200 das maiores empresas do mundo e funciona como uma ponte entre o que os cientistas dizem que o planeta precisa e o que as empresas fazem na prática.
“Criar faz parte da nossa cultura, mas estar no mercado é importante para tornar nossa presença pública como agentes de inovação que não precisam derrubar a floresta”, diz Sidjä Wahiü sobre o primeiro chocolate indígena da região.
A coalizão entende que, para salvar a Amazônia, não basta apenas “não desmatar”; é preciso criar um sistema alimentar que valorize o produto da floresta. É aqui que entra o chocolate Sidjä Wahiü. Ele serve como um modelo real de “Cadeia de Valor Sustentável” que o WBCSD apresenta para outras empresas aprenderem a replicar.
Moradora da comunidade ribeirinha Jericoá 2, em Vitória do Xingu, Katyana resgatou o legado de seu avô para revolucionar o cacau nativo. O que antes era tradição familiar, hoje se apresenta como barras de 72% cacau que celebram a biodiversidade da floresta ao se fundirem com abacaxi, pitaya e banana. Mais do que um produto de alto valor, o chocolate é o fruto do trabalho integrado de três famílias locais, provando que a ancestralidade e a bioeconomia caminham juntas.

“A produção de alimentos costuma envolver boa parte da família e isso já fala muito sobre quem somos. Nas comunidades indígenas, compartilhar conhecimento é regra”, comenta.
De acordo com Katyana, todos numa comunidade indígena têm seu papel na construção de conhecimento, mas as principais guardiãs são mulheres. Daí o o nome Sidjä Wahiü, que significa ‘Mulher Forte’ na língua Xipaya.
Parceria com a Cacauway
Katyana conta que, após a colheita e o processamento inicial feito ainda nas comunidades de Jericoá 2, a matéria-prima segue para Medicilândia, onde é processado pela Cacauway, parceira técnica responsável pela finalização e refino dos chocolates.
Segundo Ademir Venturin, diretor da empresa, a parceria é essencial para posicionar o chocolate do Xingu no mercado nacional e global da indústria sustentável.
“Grandes marcas do mercado estão alterando suas fórmulas, adicionando mais açúcar e gordura para não perder lucro, mas isso está acontecendo porque as mudanças climáticas já estão afetando a produção do cacau e muitos empresários preferem mexer no produto todo para proteger o lucro, do que ter uma conversa franca sobre meio ambiente e a cadeia do cacau. Iniciativas de manejo responsável como a Sidjä Wahiü apostam na transparência e já trazem esse diálogo desde a origem”, destaca.
A Cacauway contribui com o acabamento do produto e com as embalagens necessárias para o mercado de chocolates finos, sem descaracterizar a receita original e o saber tradicional.
“Nós (Cacauway) produzimos aproximadamente 1,2 tonelada de chocolate por mês, em parceria com mais de 120 famílias beneficiadas que cultivam em SAFs. A Sidjä possui seu próprio alcance também em SAFs e vai expandir ainda mais. É uma alegria muito grande fazer parte desse processo porque vai além as premiações, é o reconhecimento do esforço de centenas de famílias que apostam todas as fichas no desenvolvimento sustentável”, diz.
Sementinha por sementinha
Para Katyana, o reconhecimento internacional ao empreendimento representa uma conquista coletiva.
“O Sidjä Wahiü não é algo só meu. É a oportunidade de mostrar a força do empreendedorismo indígena, da nossa cultura e do protagonismo das mulheres. Essa é uma história construída sementinha por sementinha”, afirma.
A trajetória de Katyana reflete um movimento maior que vem ganhando força no Pará, estado responsável por mais de 50% da produção nacional de cacau. De acordo com a Embrapa, a cadeia do fruto movimenta cerca de R$ 3,5 bilhões por ano no Brasil.
Para o futuro, a empreendedora e líder indígena acredita em uma cadeia produtiva com ainda mais parceiros, que possam olhar na mesma direção: a preservação da floresta em pé, fortalecimento da cultura indígena e a manutenção de cadeias de trocas de conhecimento.
“A gente fica em movimento o ano todo, participamos de formações para produzir ainda melhor, compartilhamos mudas de café, cacau e outros frutos com outras comunidades e ensinamos a gerar renda com esses insumos. Um futuro mais justo é possível quando entendemos que precisamos desenvolver essa parceria também com a natureza. Se nós não gostamos dessas relações injustas, por que vamos impor isso para a floresta?”


