Uma aventura sem prazo de validade pela América Latina foi o estopim para o nascimento de uma empresa que hoje une cosméticos naturais a impacto socioambiental. A Ekilibre Amazônia, fundada pelo advogado Kairós Kanavarro e sua mãe, a farmacêutica Zezé Freitas, prevê lucrar até R$ 3 milhões em 2026 ao transformar conhecimento ancestral em produtos de alto valor agregado.
O negócio começou a ganhar forma em 2008, quando Kanavarro trocou a rotina jurídica em São Paulo por um roteiro de dois meses pelo continente. O que deveria ser uma pausa rápida durou três anos e meio. Na bagagem, ele trouxe a experiência de ter passado por 14 países, mas, principalmente, o aprendizado colhido em comunidades indígenas e ribeirinhas. Nesses locais, Kanavarro mergulhou no uso tradicional de plantas e frutos, compreendendo o potencial econômico e o profundo significado cultural desses insumos para a floresta.
Foi então que Kairós tomou uma decisão que mudaria o rumo da própria vida: abdicar da carreira jurídica para se dedicar ao uso de criação de cosméticos à base de insumos naturais.
“Eu queria trabalhar com plantas e também com algo que fosse impossível de ser ignorado”, afirmou durante entrevista ao Pequenas Empresas, Grandes Negócios (PEGN).
Após a decisão, ele voltou a morar com a mãe e deu início as primeiras fórmulas de hidratantes faciais, cremes dentais e desodorantes sem alumínio. Zezé foi a primeira consumidora da marca, abandonando os produtos tradicionais para testar as formulações artesanais do filho.
Com os testes, resultados e contribuições como farmacêutica, Zezé virou sócia e cofundadora, contribuindo diretamente nas decisões técnicas, regulatórias e de qualidade.
Alter do Chão: de incubadora a porto seguro
Para estar mais perto dos insumos e firmar conexões com produtores e povos tradicionais, Kanavarro de mudou para Alter do Chão, no oeste paraense. A região conhecida como Caribe Brasileiro virou palco da comercialização dos primeiros sabonetes e desodorantes, comercializados em feiras e praças do distrito.
“Eu colocava os sabonetes numa cesta de palha e vendia na praça. Em 20 ou 30 minutos, vendia tudo”, relembra.
Como forma de impulsionar ainda mais o empreendimento, o empresário investiu em um outro aporte financeiro para levantar lucro mais rápido: a produção de caipirinhas com frutas amazônicas, ervas e pimentas locais. A aposta deu certo e, em 2012, nascia a primeira loja física do empresário que trabalhava com bebidas e cosméticos. A Ekilibre nasceria formalmente pouco depois, em 2016.
Em 10 anos de existência, a empresa alcançou marcas importantes nos últimos anos, fechando o ano de 2024 com faturamento de R$ 1,8 milhão e o ano de 2025 com R$ 2,1 milhões em 2025.
De onde vem o produto?
A matéria-prima da Ekilibre é obtida diretamente com comunidades da floresta, sem intermediários. Kanavarro explica que a empresa exerce práticas de capacitação e comércio justos com os seus 30 a 35 fornecedores cadastrados. Na prática, a relação vai além da compra e venda, incluindo também organização produtiva, financiamento de certificações orgânicas.
“Fortalecer essa cadeia é parte central do nosso propósito”, explica Kairós.
Além disso, produtos com diversas comprovações de origem como ingredientes naturais, orgânico, vegano e kosher reforçam o controle sobre a rastreabilidade dos insumos, gerando valorização e confiabilidade entre o setor produtor e consumidores.
O portfólio inclui protetor solar, desodorante, sérum amazônico e creme facial noturno formulados com ingredientes naturais e óleos vegetais, além de uma linha infantil com quatro certificações. Atualmente, o protetor solar é o carro-chefe da marca.
“Ele é físico, forma uma camada que reflete a luz solar e tem poucos componentes”, detalha Zezé.
Com cada vez mais clientes, a empresa já trabalha em adaptações de produtos, como o lançamento do protetor solar com cor para diversos tons de pele. Para um resultado fiel as práticas sustentáveis, as cores serão obtidas a partir de pigmentos naturais extraídos de resíduos de madeira reaproveitada.
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Crescendo juntos
A empresa conta atualmente com 15 colaboradores diretos e sua produção acontece no Pará, embora as embalagens e alguns insumos gerais venham de São Paulo. A cidade também é responsável por boa parte do público consumidor.
Quase 60% do crescimento da empresa é sustentado pela expansão do varejo direto ao consumidor (B2C), mas com a expansão do fortalecimento do braço B2B, onde a marca cria e produz para outras empresas, será necessário abrir uma segunda fábrica.
Com incentivos da Zona Franca, Manaus receberá a grande novidade, fundamental para redistribuir a produção da seguinte forma: a produção e sabonetes e de pesquisa de novos produtos será feita no Pará, enquanto a fabricação dos demais produtos.
Além da nova Fábrica, o empresário revela os planos para o futuro da Ekilibre, como a internacionalização, com foco inicial na Europa e nos Estados Unidos.
“O crescimento do uso de protetor solar nos EUA gira entre 15% e 20% ao ano”, comenta Kairós.
Para mãe e filho, os números são importantes para a viabilidade econômica do projeto, mas o sonho compartilhado real é redesenhar hábitos de consumo e incentivar um novo ecossistema de beleza.
“O legado é fortalecer a cadeia produtiva amazônica e gerar riqueza para a região”, afirma Kairós. Já Zezé completa: “É mostrar para o próprio povo amazônico a riqueza que existe ali e que pode transformar a vida deles e do país”.


