Por Tereza Coelho
Uma imersão profunda pelos sabores do Pará. Essa é uma das experiências proporcionadas pela Bee Commerce Amazônia, startup de impacto socioambiental que aposta na valorização da cadeia produtiva das abelhas como estratégia de geração de renda, conservação ambiental e fortalecimento da bioeconomia por meio do mel de abelha.
Fundada pela bióloga Jamille Veiga, a empresa trabalha com a comercialização de méis e outros produtos derivados da criação de abelhas com e sem ferrão. Entre os principais produtos estão o extrato artesanal de própolis e os méis, provenientes de pequenos produtores de cinco cidades do nordeste paraense. A empresa também é composta pela engenheira agrônoma Yasmin Gomes e o biólogo Lucas Bernardes.
Biodiversidade na ponta da língua
Ao apresentar o produto, Jamille mostra algumas embalagens de mel onde é possível ver pequenas diferenças de cor e sedimentação. Na degustação de cada amostra, o que se sente é uma variação de sabores que abrangem o aromático, cítrico, amadeirado e picante. Jamille conta que o sabor do mel é diretamente ligado ao ambiente onde as abelhas vivem, resultando em uma produção diversa ao longo do ano.
“O manejo das abelhas e a biodiversidade local têm relação direta com o que você vai sentir ao experimentar: locais com floresta mais densa e com maior exposição à chuva e à umidade podem gerar méis mais concentrados e com um sabor mais picante, podendo apresentar notas amadeiradas. Já em regiões de agrofloresta e com estações mais definidas, o mel pode apresentar um sabor mais frutado, com presença de nuances florais”, explica.

Benefícios medicinais
De acordo com a bióloga, o mercado de saúde voltado à prevenção de doenças pela alimentação movimenta lucros anuais superiores a 500 bilhões de dólares. Com base na experiência prévia de toda a equipe em projetos de proteção às abelhas, eles decidiram unir o conhecimento sobre o mel silvestre aos seus benefícios medicinais. O objetivo é consolidar o produto como um superalimento que fortalece o sistema imunológico e, simultaneamente, protege a vegetação nativa. Por meio de uma curadoria junto a pequenos produtores, a iniciativa garante um mel livre de desmatamento que auxilia diretamente na preservação da floresta.
“Muita gente só lembra do mel na hora de tratar gripes e resfriados, mas há comprovação científica dos seus benefícios como alimento prebiótico, ajudando a tratar problemas gastrointestinais, a combater radicais livres e a ser uma fonte natural de energia. Isso sem falar em outras vantagens que a indústria cosmética já conhece, como ajudar na hidratação de pele, cabelos e até na cicatrização de ferimentos”, lembra.
Os principais parceiros da Bee Commerce são pequenos produtores dos municípios de São João de Pirabas, Salinópolis, Tracuateua, Quatipuru e Santarém Novo. Por meio do manejo cuidadoso e do comércio justo, esses produtores garantem o bem-estar das abelhas e promovem a economia da floresta em pé, unindo produtividade à conservação ambiental.
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Origem comprovada e fortalecimento conjunto
Jamille destaca que o principal diferencial do negócio está no respeito à pequena escala e à identidade de cada produção. Na prática, isso significa que os méis não são misturados, logo, cada frasco representa exclusivamente o trabalho de um produtor ou produtora.
“Esse cuidado garante rastreabilidade, transparência e valoriza quem está na ponta da cadeia”, explica Jamille.
A rastreabilidade e a transparência são garantidas por cartões informativos que acompanham cada produto, independentemente do volume. Esses registros detalham se o manejo provém da apicultura (abelhas com ferrão) ou da meliponicultura (abelhas nativas sem ferrão), identificando a espécie responsável, o perfil dos criadores e a origem botânica do mel. Essa abordagem estabelece uma conexão direta entre a biodiversidade local, as técnicas de manejo e as notas sensoriais do alimento.

Enquanto o mel de abelhas com ferrão já é amplamente conhecido, as espécies nativas da Amazônia ocupam um lugar central na estratégia da empresa, que busca valorizar o produtor regional e integrar a sustentabilidade ao crescimento da cadeia produtiva.

“No Pará, mais de 120 espécies já foram catalogadas, o que coloca o estado como uma referência para a meliponicultura, mas essa vocação do território ainda é pouco reconhecida. Por isso muitas pessoas não conhecem essas abelhas, nem o mel que produzem”, afirma.
Atualmente, a comercialização do produto, que conta com embalagens em vidro e refis de diversos volumes, é feita pelas redes sociais e site do Bee Commerce. Por lá também é possível agendar a experiência sensorial, em que o cliente faz um passeio imersivo pelos sabores do mel amazônico.
Para Jamille, a ideia de aproximar este superalimento do dia a dia da população é ampliar o olhar do consumidor para além do produto final, convidando a uma reflexão sobre origem, biodiversidade e conservação ambiental.
“A ideia é encantar, mas também educar quem consome”, declara.


