No oeste do Pará, mais precisamente entre Óbidos e Oriximiná, os portões da Floresta Estadual (Flota) Trombetas se abriram para um ritual que une sobrevivência e conservação. No último sábado, 7, a base do Jamaracaru, sob a gestão do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio), foi o palco da abertura oficial da safra da castanha-do-pará, reunindo centenas de extrativistas em um momento onde a economia encontra seu pulsar mais ancestral.
Para os mais de 600 extrativistas cadastrados, o acesso à floresta é a formalização de um pilar da bioeconomia paraense. Ali, a exploração não é predatória, mas planejada, o que garante a continuidade de uma prática tradicional que sustenta famílias, fortalece as comunidades locais e mantém a floresta em pé
A assessora de Gestão do Ideflor-Bio, Lena Pinto, sintetizou o espírito da iniciativa:
“São mais de 600 extrativistas trabalhando de forma legal, gerando renda, fortalecendo comunidades e protegendo a Amazônia. Isso é bioeconomia na prática”, disse.
A expectativa financeira é tão robusta quanto as castanheiras: projeta-se uma arrecadação superior a R$ 2 milhões nesta safra.
“Essa é uma oportunidade ímpar para a geração de renda e o fortalecimento da bioeconomia no estado, ao mesmo tempo em que reforça a necessidade de um trabalho responsável, que preserve o meio ambiente e respeite as comunidades tradicionais”, afirmou Lena.
O “Ano Novo” da floresta
Para quem carrega o cesto nas costas, o simbolismo é profundo. Raquel da Silva Sampaio, extrativista local, traduziu a emoção da retomada.
“O coração está a mil. Como costumamos dizer, o nosso ano novo começa hoje, com essa abertura, porque a partir de agora a gente vai começar a ter renda na nossa mesa. Somos muito gratos à parceria com o Ideflor-Bio, que nos últimos anos tem sido maravilhosa.”
Cidiane Sampaio, presidente da Associação Mista Agrícola Extrativista dos Moradores da Comunidade Jaramacaru e Região (Acaje), confirmou o otimismo e o preparo da comunidade para o novo ciclo. Já o veterano Cornélio Ferreira de Oliveira, que percorre esses ramais desde 1984, celebrou a organização atual:
“Estou aqui desde 1984 fazendo esse trabalho. Esse momento da abertura dos portões é sempre muito esperado. Estamos felizes com essa parceria com o Ideflor-Bio, porque agora as coisas seguem mais organizadas.”
Do ouriço ao saco
O processo extrativista segue o cronograma da natureza. Após a queda natural dos ouriços (frutos da Bertholletia excelsa) entre dezembro e janeiro, inicia-se o trabalho manual: coleta, quebra, retirada das amêndoas, secagem e ensacamento.
Ronaldson Farias, gerente da Calha Norte II, prevê a extração de cerca de quatro mil sacos de castanha este ano. Para garantir a segurança e a eficiência, o planejamento contou com a atualização cadastral dos trabalhadores e o apoio crucial da Polícia Ambiental no monitoramento da entrada na unidade.
Ciência e parceria no chão da floresta
A Flota Trombetas não é apenas um celeiro de castanhas; é um laboratório vivo. O diretor Ellivelton Carvalho ressalta que a unidade é estratégica para a pesquisa científica e o avanço do conhecimento sobre a biodiversidade amazônica.
O sucesso da operação é fruto de uma rede de colaboração entre Ideflor-Bio, a 1ª Companhia Independente de Polícia Ambiental (CIPAmb), a associação Acaje e as prefeituras de Óbidos e Oriximiná.
“A preservação da área permite avanços no conhecimento científico e gera benefícios diretos às populações locais, que dependem dos recursos naturais para sua subsistência. O extrativismo sustentável da castanha-do-pará na Flota Trombetas se consolida, assim, como exemplo de desenvolvimento responsável, capaz de gerar renda e proteger a Amazônia para as atuais e futuras gerações”, conclui Carvalho


