Um estudo do projeto Radar Verde, realizado pelo IMAZON (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) e pela organização O Mundo que Queremos, revela que frigoríficos no Pará ainda possuem alta exposição ao risco de adquirir gado de áreas com desmatamento ilegal. Detentor do segundo maior rebanho bovino do País, o Estado é o mais avançado em rastreabilidade.
A análise de 39 plantas frigoríficas, com capacidade diária de abate de 15.467 cabeças, mostra que o risco em algumas unidades varia de 99 mil a mais de 2 milhões de hectares, com a unidade da Mafrinorte em Castanhal apresentando a maior exposição, chegando a 2,85 milhões de hectares. Os dados foram obtidos pelo jornal Valor Econômico.
Os resultados mostram que apenas 13 unidades exercem controle sobre fornecedores diretos e nenhuma possui monitoramento comprovado sobre os fornecedores indiretos.
A pesquisadora Camila Trigueiro, do IMAZON e do Radar Verde, esclarece que o cálculo considera todo o trajeto potencial de compra dos frigoríficos. O índice leva em conta áreas já desmatadas, embargos ambientais e zonas com risco iminente de desmate. Segundo Trigueiro, um alto Grau de Exposição ao Risco de Desmatamento sinaliza chances elevadas de a indústria processar animais vindos de terras com irregularidades socioambientais.
O Pará tem cerca de 26 milhões de bovinos e 782 mil cabeças de búfalos – mais de 70% concentrados no Marajó.
Desempenho empresarial e o papel do TAC da carne
A JBS foi apontada pelo Radar Verde como a empresa com o melhor desempenho relativo. O destaque deve-se à maior transparência em informações públicas sobre políticas socioambientais e critérios de compra, além do uso de auditoria independente para suas unidades no Pará. Entretanto, a pesquisadora ressalta que a JBS ainda carece de controle sobre os fornecedores indiretos. Assim como a Mafrinorte, a JBS não respondeu aos pedidos de comentário.
Sobre a governança do setor, o estudo informa que:
- 61% dos frigoríficos avaliados assinaram o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) da Carne, firmado com o MPF (Ministério Público Federal).
- A adesão ao TAC, contudo, não garante uma nota alta na avaliação do Radar Verde; há empresas signatárias com baixo desempenho devido à falta de transparência e divulgação de compromissos.
- Os signatários concentram-se no sudeste paraense, região onde a pecuária historicamente impulsionou o desmate.
Rastreabilidade individual e posicionamento da ABIEC
Para o IMAZON, os dados do Radar Verde são ferramentas para o estado priorizar a implementação da rastreabilidade com identificação individual dos animais, focando nas áreas de maior risco. Atualmente, o território paraense possui 360 mil animais com identificação individual, mas a obrigatoriedade deste sistema foi adiada pelo governo estadual por cinco anos, passando a valer apenas em 2030.
O objetivo do Programa Pecuária Sustentável do Pará é implementar a rastreabilidade animal, um dos eixos de comprovação da origem dos animais, abrindo espaço de comercialização da carne produzida no Pará para os mercados internacionais exigentes, como o europeu e o chinês, além do fortalecimento da confiança dos consumidores. A meta do programa é rastrear 100% do rebanho bovino movimentado no Pará, agora, até 31 de dezembro de 2030.
Por outro lado, a ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) afirmou ser “louvável” objetivo do Radar Verde de auxiliar consumidores, mas criticou a metodologia do estudo. Em nota, a associação afirmou que o levantamento ignora políticas internas de rigor na compra de matéria-prima, o que pode confundir o consumidor.
Segundo a entidade, indústrias com aprovação em auditorias oficiais do TAC acabam recebendo avaliações negativas no projeto e que exigência de rastreabilidade total da cadeia esbarra na falta de transparência dos dados públicos de trânsito animal, impedindo que as próprias indústrias exerçam o controle cobrado pelo Radar Verde.
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