Por Tereza Coelho
Diante de um cenário onde a produção de açaí gera diariamente entre 200 e mil toneladas de resíduos — sendo 90% compostos por caroços, segundo a UFRA —, a gestão desse material tornou-se uma prioridade pública e privada.
A Prefeitura de Belém disponibilizou para consulta pública a Resolução Normativa nº 001/2026. A medida estabelece regras para o armazenamento, coleta e destinação do resíduo, visando coibir o descarte irregular em canais e vias públicas. O prazo para contribuições segue até 18 de fevereiro.
Essa necessidade de regulamentação reflete um desafio que o empresário Washington Filho observa desde a infância no nordeste paraense.
“Desde muito cedo observamos esse acúmulo nas cidades e nas comunidades (ribeirinhas). Embora faça parte de quem somos, esse resíduo não deixa de ser um problema ambiental”, afirma.
Para enfrentar a questão, ele fundou a Unaí, transformando o descarte em matéria-prima de alto valor para construção civil e design. Washington explica que, embora o artesanato já aproveite o caroço, a escala atual exige soluções robustas.
“Comecei a trabalhar muito cedo e, com minha avó, sempre treinamos muito o olhar para buscar oportunidades e o açaí me tocou por estar sempre na minha vida. Muitas famílias fazem esse aproveitamento por meio do artesanato e produção de moda, mas hoje o volume de resíduos é muito alto e precisávamos de algo que usasse grandes volumes de matéria-prima”, explica.
Com a Unaí, o empreendedor paraense transformou desafio ambiental do açaí em oportunidade de negócio tanto para a construção civil, a arquitetura e o design.
Construções com identidade ribeirinha
Atualmente, o principal público da Unaí são arquitetos, designers, construtoras, empresas e marcas que buscam soluções sustentáveis para revestimentos, decoração e projetos especiais. Os produtos principais são os revestimentos personalizados para áreas internas e externas, mas também existe a produção sob medida de utensílios como pias e recursos de iluminação.

Washington explica que essa diversidade de clientes existe graças às conexões firmadas entre parceiros, amigos e clientes antigos, que renderam participações em programas de televisão como Pequenas Empresas & Grandes Negócios e Shark Tank Brasil.
“O mercado está cada vez mais atento à sustentabilidade, mas boa parte do caminho entre o cliente e o empreendedor ainda acontece no boca a boca. Esses espaços (na TV, sites especializados e eventos) ajudam a nossa iniciativa a chegar em clientes que demoraríamos mais tempo para alcançar”, explica.

A empresa já criou projetos para empresas de grande porte como Natura, Supergasbras, assim como também possui parceiros em Belém e São Paulo para aplicações em lojas, espaços comerciais e ações de ESG. Para ele, cada nova parceria mostra a força do empreendimento e da sua missão.
“Cada projeto é especial por mostrar que o resíduo do açaí pode ocupar espaços nobres da arquitetura e do design. Já passamos a fase de projetos experimentais e agora você pode estar em um evento ou estabelecimento onde sua construção apoia a economia sustentável e todo o ecossistema de trabalhadores que sobrevivem da floresta e dos seus insumos, da fruta aos resíduos”, detalha.

Sustentabilidade de ponta a ponta
Por meio de parcerias com a Cooperativa dos Fruticultures de Abaetetuba (COFruta do Brasil) e batedores de açaí da cidade, a Unaí resgata o que antes seria apenas resíduo sólido para uso como matéria-prima.
“Essas parcerias são fundamentais para exercer nosso trabalho. Dessa forma ajudamos a criar um ecossistema sustentável ao utilizar os insumos, valorizá-los economicamente e evitar o acúmulo de lixo, porque a má gestão dos resíduos gera problemas ambientais e prejuízos na escala de todos esse negócios”, diz.
Biojoias e armações de óculos
O projeto para 2026 inclui ampliar a produção e desenvolver novos produtos como biojoias e armações de óculos. O impulso para escalonar a ampliação da empresa veio pelas demandas recebidas e pelas conexões estabelecidas durante a COP30, ocorrida em Belém no final de 2025. Para Washington, o evento trouxe oportunidades especiais de conexões para a iniciativa.
“Aumentando a produção, podemos incluir mais cooperativas e buscar resíduos além de Abaetetuba. Com esse reforço na estruturação queremos entrar na disputa para acessar investimentos e parceiros estratégicos para ampliar nosso impacto positivo na sociedade e no meio ambiente”, diz.


