O que antes era descartado na natureza ou vendido apenas como insumo bruto, agora ganha a sofisticação da ciência e o valor da indústria em Juruti, no Baixo Amazonas. A inauguração do laboratório BioJuruti, no distrito de Castanhal, marca um salto estratégico para o Pará: a estrutura é voltada à extração de óleos e manteigas vegetais de ativos como cupuaçu, tucumã, castanha, buriti, patauá e andiroba, garantindo que a riqueza gerada pela floresta permaneça nas mãos de quem nela habita.
A iniciativa é fruto de um acordo de cooperação entre a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas) e a Alcoa, via programa Regulariza Pará. O projeto une a expertise da UFPA, o Instituto ISACI, a prefeitura local e, principalmente, a Cooperativa Agroindustrial de Castanhal e Planalto (COOCALP).
Diferente de modelos tradicionais onde as comunidades apenas coletam o fruto, o BioJuruti foca no ciclo completo. Para o secretário adjunto da Semas, Rodolpho Zahluth Bastos, essa construção coletiva é a “receita do sucesso”.
“O projeto reúne comunidade, sociedade civil, iniciativa privada, universidade, poder público municipal e poder público estadual, e essa é a receita do sucesso. Cada um teve uma importância fundamental na cadeia de planejamento e implementação do projeto”, afirmou. Rodolpho
O secretário enfatizou que o diferencial em Juruti é a autonomia.
“Muitas vezes, em projetos de bioeconomia, a comunidade participa apenas fornecendo a matéria-prima. Aqui em Juruti, não. O protagonismo comunitário é do início ao fim. Vocês trabalham a matéria-prima e produzem a partir dela. O diferencial desse projeto é justamente esse: garantir autonomia e protagonismo completo para a comunidade”.
Sementes que viram sustento
O impacto social é imediato para os agricultores e extrativistas da zona rural. Jackson Lima, diretor financeiro da COOCALP, destaca que o laboratório dá utilidade ao que era invisível.
“A COOCALP, junto com o ISACI, executou esse projeto, mas o maior beneficiário são os nossos agricultores. É um projeto voltado para os cooperados do Distrito de Castanhal. Nós temos várias sementes que seriam descartadas na natureza e que hoje geram renda para dentro da comunidade”, explicou.
A estrutura funcionará com apoio técnico da UFPA até 2027, preparando a cooperativa para assumir a liderança total da operação. Para o professor Ney Oliveira, do ISACI, o sucesso se deve à “territorialidade da ciência”, enquanto o professor Otávio do Canto, da UFPA, reforça o lado pragmático da preservação.
“Eu agradeço imensamente a todas as instituições e pessoas que acreditaram no nosso sonho e o transformaram em realidade. Mas nada é tão concreto quanto transformar recursos naturais como castanha, buriti, andiroba, tucumã e tantos outros em renda para a comunidade do distrito de Castanhal”.
Desenvolvimento com floresta em pé
Alinhado ao Plano Estadual de Bioeconomia (2022), o laboratório é uma peça-chave para manter a floresta conservada enquanto gera valor comercial. Pamella De-Cnop, diretora de Sustentabilidade da Alcoa, reforça que a meta é deixar um legado.
“Nosso objetivo é contribuir para que Juruti se desenvolva de forma sustentável, com a valorização dos saberes gerados na Amazônia, gerando oportunidades e qualidade de vida para a população e construindo um legado de excelência para as gerações futuras”.
A prefeita de Juruti, Lucidia Batista, celebrou a entrega como um marco da vocação local para a bioeconomia e de valor para quem vive e produz no território.
“É uma entrega que gera oportunidade, renda e desenvolvimento com responsabilidade ambiental para as comunidades”, concluiu.
Com o BioJuruti, o município deixa de ser apenas um observador da biodiversidade para se tornar um catalisador de inovação e inclusão produtiva no coração da Amazônia.


