Por Tereza Coelho
No município de Portel, no Arquipélago do Marajó, uma comunidade que lida com décadas de impactos ambientais causados pela extração predatória de madeira decidiu reagir a uma realidade cada vez mais difícil. Entre queimadas, desmatamento e uma seca histórica recente, nasceu uma iniciativa que investe nas agroflorestas a esperança para recuperar áreas degradadas e garantir o futuro das famílias locais.
A Associação dos Agricultores e Agricultoras da Estrada do Acutipereira (AGROESP) tem pouco mais de um ano de existência formal. Lá existem 20 famílias que dependem diretamente do uso da terra e que sentem a dificuldade imposta pela mudança climática todos os dias.
Valcinena Santos, presidente da associação, explica que a exploração madeireira ilegal é antiga, mas continua afetando a região até hoje.
“Desde 2004 tentam parar essa extração nas margens do Rio Acutipereira, mas ela continua. A qualidade do ar fica péssima. Prejudica plantação, prejudica a saúde da gente. Durante a seca de 2024 foi difícil até entender o que fazer, foi um caos completo e muito sofrimento”, relembra.
Plantar para garantir a própria sobrevivência
Foram as próprias famílias que começaram a pensar em possíveis soluções para enfrentar o problema. Graças a construção coletiva, feita com os conhecimentos técnicos e práticos de cada um, veio a ideia principal: os viveiros agroflorestais, que permitem recuperar a floresta e produzir alimento ao mesmo tempo.
O objetivo é criar espaços para cultivar mudas de árvores e plantas, que serão cultivadas na área da associação. Após a fase inicial frutificar, as novas mudas serão levadas para áreas degradadas.
“Já fizemos testes e deu certo, agora estamos em busca de oportunidades para aumentar ainda mais o projeto. Pra gente, cuidar da floresta é como proteger a própria vida”, diz.

Nesta semana, a Associação foi anunciada como uma das selecionadas na Teia da Sociobiodiversidade, iniciativa do Fundo Casa Socioambiental com apoio financeiro do Fundo Socioambiental CAIXA. O programa fomenta organizações de base comunitária que promovem soluções enraizadas nos territórios e valorizam a sociobiodiversidade brasileira. Ao todo, a iniciativa destinará cerca de R$ 40 milhões em incentivos para o fortalecimento desses projetos
Para Valcinena, o resultado traz o fôlego necessário para transformar sonhos em realidade. Com a base do projeto comunitário já estruturada, a comunidade planeja uma expansão ambiciosa: formar agentes locais capacitados para difundir técnicas de plantio de mais de 20 espécies nativas.
“Vamos implantar 20 canteiros de agrofloresta e instalar um viveiro de 80 m² com capacidade de produzir 3 mil mudas por ano, também vamos formar agentes na comunidade e buscar apoio especializado para fazer bem feito, para que dure muitos e muitos anos”, comenta.
Atualmente, a associação já é fornecedora da prefeitura da cidade via Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), ajudando a abastecer as escolas do município. No entanto, o horizonte ainda apresenta desafios, como o aprimoramento dos sistemas de plantio e a abertura de novos mercados e parcerias estratégicas.
A aposta nos viveiros agroflorestais é o caminho para aumentar a produtividade de forma sustentável, provando que é possível prosperar sem derrubar a floresta. Além do ganho econômico, a recuperação de áreas degradadas promete impactos ambientais diretos, melhorando a qualidade do solo e do ar para a comunidade e seus vizinhos.
Valcinena revela que seu sonho tem um alcance vasto — muito maior do que a fumaça das queimadas que, por tanto tempo, castigou a região. Ela reconhece que a jornada exige paciência e resiliência, mas mantém o foco no legado a longo prazo.
“Em 10, 15, 20 anos, a gente imagina ter uma vida saudável, respirando um ar puro, com todos tendo o que comer e vivendo em harmonia na comunidade. Esse sonho de um futuro melhor é o que move a gente e dá forças para continuar”, revela.
Décadas de agressões ambientais
Maior que o estado do Sergipe em termos territoriais, a chamada ‘Floresta Marajoara’ coleciona décadas de agressões ambientais na sua história. Recentemente, quando a melhoria em tecnologias permitiu uma mensuração mais ágil de danos, foi catalogado um processo de desmatamento ilegal acentuado na região. A região inclusive chegou a liderar o número de queimadas no Pará durante o período mais seco do ano entre 2022 e 2024, com mais de mil focos registrados.
O ano de 2024 foi especialmente difícil para as comunidades amazônicas. Segundo uma análise do InfoAmazonia, com base em dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais, quase 60% dos municípios da região registraram algum grau de seca de 1º janeiro até 31 de dezembro, aumentando a vulnerabilidade física e social de áreas distantes dos centros urbanos.
A combinação de calor intenso, pouca chuva e ação humana tem acelerado o problema e causado um impacto direto na vida das comunidades rurais: as plantações duram menos tempo, o solo perde força e o ar fica pesado por causa da fumaça. Muitas famílias também convivem com o medo de invasões e com a perda de áreas onde vivem há gerações.


