Resumo
- Em 2025, a Amazônia registrou 693 mil hectares de desmatamento — o menor valor da série histórica —, sendo 639 mil hectares em vegetação primária e 54 mil hectares em secundária. A vegetação secundária já ocupa 7,3 milhões de hectares (crescendo 180 mil hectares/ano)
- Enquanto isso a expansão agropecuária alcançou 65,3 milhões de hectares em 2025, o que representa 15,5% do bioma. No acumulado histórico (1985–2025), a conversão total para uso antrópico chegou a 74,6 milhões de hectares (83% nos últimos 40 anos), com perda acumulada de 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa.
- O bioma possui 618 mil km de estradas (41,5 mil km dentro de áreas protegidas). A agropecuária ocupa 40,2% das áreas a até 5 km das vias (63 milhões de hectares), reduzindo-se para 26,7% no raio de 20 km.
- A agropecuária cresceu 561% desde 1985 nessas faixas de entorno, ocupando 30,5% (13,6 milhões de hectares) de áreas protegidas. Dentro das áreas protegidas (Terras Indígenas, UCs e quilombolas), a vegetação nativa ainda responde por 98% da cobertura.
- A pastagem cresceu 556% desde 1985, sendo o destino inicial de 77% dos desmatamentos e somando 50,8 milhões de hectares (12% do bioma).
- A agricultura saltou de 161 mil hectares em 1985 para 8,6 milhões de hectares em 2025 (2% do bioma), com destaque para a soja (7 milhões de hectares).
- As áreas úmidas, que somavam 59,8 milhões de hectares em 2025, apresentando uma retração de 4,4% em relação a 1985 (60% das áreas convertidas viraram pastagem).
- A Amacro (AM, AC, RO) perdeu 7 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985 (-16%), com pastagens multiplicadas por 15.
- A mineração passou de 32 mil hectares em 1985 para 440 mil hectares em 2025 (quase 14 vezes a área inicial), com 47% desse total aberto na última década.
Enquanto o desmatamento na Amazônia recuou para o menor patamar da série histórica em 2025 — registrando 693 mil hectares —, a atividade agropecuária seguiu em expansão, alcançando 65,3 milhões de hectares, o equivalente a 15,5% do bioma.
É o que revela o recorte da Coleção 11 do MapBiomas, divulgado nesta quarta-feira, 14, que detalha a complexa dinâmica do uso da terra na região. Do total desmatado no ano, 639 mil hectares ocorreram em vegetação primária (áreas até então intocadas) e 54 mil hectares em vegetação secundária.
O estudo aprofunda a análise sobre onde e como essa expansão acontece. A agropecuária cresceu 561% desde 1985 no entorno das áreas protegidas da Amazônia e já ocupa 30,5% (ou cerca de 31%) dessa faixa, somando 13,6 milhões de hectares.
A agropecuária da Amazônia segue o traçado das estradas e cobre 40% das áreas a até 5 quilômetros (km) das vias (o equivalente a 63 milhões de hectares), que levam a produção aos portos e conectam as cidades da região. Ao mesmo tempo, a atividade avança sobre o entorno das áreas protegidas e responde por 31% da faixa de 5 km ao redor delas, aumentando a pressão sobre a floresta.
A participação da atividade diminui à medida que aumenta a distância das estradas: considerando um raio de 20 quilômetros, ela representa 26,7%. Em contrapartida, a vegetação nativa segue o movimento inverso, correspondendo a 56,7% da área a até 5 quilômetros e chegando a 69,3% no raio de 20 quilômetros.
As dinâmicas variam consideravelmente entre as principais rodovias da Amazônia:
- BR-364: Apresenta o maior percentual de agropecuária no raio de 20 quilômetros, atingindo 43,5%.
- BR-163: Apresenta 39% de agropecuária em seu raio de 20 quilômetros.
- BR-319: Mantém forte predominância de preservação, com a vegetação nativa representando 86% da área no mesmo raio.
Para Bruno Ferreira, pesquisador do MapBiomas, o avanço da infraestrutura exige cautela. De acordo com ele, a expansão das estradas não representa apenas a abertura de novos caminhos de circulação. Ela também amplia o acesso a áreas antes mais isoladas e pode facilitar a chegada de diferentes atividades e formas de ocupação do território.
“O avanço da infraestrutura, especialmente quando acompanhado pela abertura de ramais e acessos secundários, requer atenção a curto e a longo prazo, pois pode conectar fronteiras de desmatamento, exploração de madeira, ocupação irregular em extensas áreas de vegetação nativa e áreas protegidas”, explica.
O papel central das áreas protegidas
Dentro das áreas protegidas — que englobam Terras Indígenas, Unidades de Conservação e territórios quilombolas —, a vegetação nativa responde por 98% da cobertura. No entanto, a proximidade de pressões externas exige políticas contínuas de blindagem.
Ives Brandão, da equipe da Amazônia do MapBiomas, afirma que as áreas protegidas desempenham um papel fundamental na conservação do bioma, funcionando como uma espécie de barreira à transformação da paisagem e mantendo grandes extensões de vegetação nativa.
“À medida que estradas, outras atividades e novas formas de ocupação se aproximam de seus limites, essas áreas também passam a sofrer pressões crescentes. Por isso, além de garantir a proteção desses territórios, é importante que existam condições e políticas que fortaleçam sua conservação. Quando essa proteção é enfraquecida, essas áreas podem ficar mais vulneráveis justamente em um contexto de avanço das pressões sobre a paisagem ao seu redor”, aponta
Desmatamento em baixa histórica
Em 2025, os 693 mil hectares de desmatamento consolidaram o menor valor da série histórica. Do total, 639 mil hectares incidiram sobre vegetação primária, enquanto 54 mil hectares ocorreram em vegetação secundária. Esta última já ocupa 7,3 milhões de hectares na Amazônia (cerca de 2% da cobertura nativa do bioma) e vem crescendo a uma média de 180 mil hectares por ano.
No acumulado de quatro décadas (1985–2025), o bioma perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa. Nesse mesmo período, a área destinada à agropecuária cresceu 440%, e a conversão total para uso antrópico aumentou 492%, totalizando 74,6 milhões de hectares antropizados — sendo que 83% desse total acumulado foi convertido nos últimos 40 anos.
A classe de formação florestal sofreu o maior impacto, perdendo 49,7 milhões de hectares (-14,8%), o que representa 96% de toda a vegetação nativa perdida no período.
Dinâmica de pastagens, agricultura e áreas úmidas
A pastagem continua sendo o principal motor e o destino majoritário do solo convertido: entre 1985 e 2025, a área de pastagem cresceu 556%. Em média, 77% dos casos de desmatamento tiveram a pastagem como o primeiro uso registrado. Ao final de 2025, 37,7 milhões de hectares haviam se consolidado especificamente como pastagem, integrando os 50,8 milhões de hectares de pastos mapeados no bioma (12% da Amazônia).
A agricultura também registrou forte expansão, passando de 161 mil hectares em 1985 para 8,6 milhões de hectares em 2025 (2% do bioma).
Nesse segmento, a soja saltou de apenas 1,4 mil hectares para 7 milhões de hectares. Além disso, parte das áreas abertas originalmente para pastagem foi posteriormente convertida em agricultura: são 3,7 milhões de hectares (6,2% das áreas desmatadas mapeadas), concentrados principalmente em Mato Grosso, Rondônia e Pará.
As áreas úmidas da Amazônia (rios, lagos, florestas alagáveis, campos alagados, mangues e apicuns) somavam 59,8 milhões de hectares em 2025, apresentando uma retração de 2,7 milhões de hectares (4,4%) em comparação a 1985. Os dez anos com menor área úmida da série foram registrados na última década, e 60% das áreas úmidas convertidas passaram a ser pastagem.
Por fim, a mineração também ampliou significativamente sua pegada territorial: de 32 mil hectares em 1985, saltou para 440 mil hectares em 2025 (quase 14 vezes a área inicial), sendo que 47% de todo esse montante acumulado foi aberto nos últimos dez anos.


