Resumo
- Um El Niño forte deve provocar atraso nas chuvas, seca prolongada, ar mais seco e ondas de calor na Amazônia Legal entre 2026 e 2027, com cenário comparável ao de 2010, diz nota técnica da Embrapa
- Níveis dos rios já estão muito abaixo do normal (com seca persistindo até março de 2027), gerando emergências, estrangulamento de rotas fluviais e isolamento de comunidades.
- A Amazônia Oriental terá menos chuva, atraso no plantio da primeira safra e alto risco de queimadas. A Amazônia Ocidental sofrerá com déficits de água mais agudos e fortes vazantes que afetam o transporte e o acesso a água e insumos. Já Roraima, já sofreu quebra histórica na safra 2026 de 30% a 50% devido à falta de chuva na época de enchimento dos grãos.
- A Embrapa afirma que as consequências principais serão falta de recarga nos solos e lençóis freáticos, secagem precoce de pastagens (“seca verde”), estresse hídrico em lavouras (mandioca, milho, feijão), interrupção da navegação, risco extremo de incêndios, mortalidade de peixes e desorganização dos calendários de plantio.
- A Embrapa exige o cumprimento do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), priorizando janelas de risco máximo de 20% em solos texturizados (AD2 e AD3), o que também é requisito legal para crédito e seguro rural.
- A nota propõe medidas como agilização de perícias do Proagro, garantia de renda emergencial para agricultores familiares, linhas de crédito facilitadas para irrigação, estoques de milho da Conab, dragagem de rios, apoio a planos de combate a incêndios e boletins semanais de alerta
Um El Niño de forte intensidade deve provocar atraso das chuvas, seca prolongada e calor acima do normal na Amazônia Legal entre 2026 e 2027. O alerta consta em nota técnica da Embrapa, que reúne os riscos, as estratégias e tecnologias para mitigar os efeitos extremos causados pelo fenômenos, além de ações ao poder público,
O Pará Terra Boa transformou o conteúdo numa série de três matérias, que serão publicadas a partir desta terça-feira, 6.
O texto serve de apoio ao Grupo de Trabalho GT El Niño, criado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária em 30 de junho de 2026 (Portaria nº 928).
Na Região Norte, o efeito esperado é o atraso expressivo do período chuvoso, déficit de água no solo, ar mais seco e ondas de calor que aumentam a evaporação. Em condições normais, a região recebe mais chuva de dezembro a maio e menos de junho a novembro. A economia, o transporte e a produção agropecuária dependem da cheia e da vazante dos rios.
Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), as chuvas abaixo do normal devem persistir até março de 2027, em uma seca comparável à de 2010. Em 1º de setembro, o rio Negro marcava 24,09 metros em Manaus, 2,59 metros abaixo do mesmo período de 2025.
O rio Amazonas, em Itacoatiara, estava em 9,95 metros, contra 12,13 metros no ano passado. No Amazonas, Humaitá, São Paulo de Olivença e Benjamin Constant decretaram emergência, e outros 16 municípios estavam em alerta hidrológico.
Cada parte da região sofre de um jeito
- Amazônia Oriental e faixas de transição (Pará, Amapá, norte do Maranhão e norte de Mato Grosso): a nota prevê menos chuva no total, atraso na regularização das chuvas para as lavouras de primeira safra e período seco mais longo. Também aponta queda dos níveis dos rios no estuário, risco de entrada de água salgada em canais costeiros usados para captar água doce e alta vulnerabilidade a queimadas fora de controle em pastos e áreas de floresta.
- Amazônia Ocidental (Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima): concentra os déficits de água mais agudos e as vazantes mais fortes. Isso estrangula as rotas fluviais, isola comunidades ribeirinhas e faz faltar água potável e insumos.
- Roraima: o estado tem período de chuvas invertido, e a fase de enchimento dos grãos coincidiu com a falta de chuva em julho, quando normalmente chove bem. Segundo um representante do setor produtivo no 1º Seminário de Mudanças Climáticas Globais, em Boa Vista, em 31 de agosto, a safra 2026 teve quebra histórica de 30% a 50%. Para a nota, o efeito já começou ali de forma sem precedentes, enquanto no resto da Amazônia ele ainda deve se intensificar.
Sete consequências previstas
A nota lista as seguintes consequências:
- falta de recarga de solo e lençóis freáticos, que compromete nascentes e cacimbas;
- queda na capacidade de sustentar gado nas pastagens, com secagem precoce do capim;
- estresse de calor e falta d’água na floração e no pegamento de frutos de mandioca, milho e feijão-caupi de sequeiro;
- rios sem condição de navegação, o que para o transporte de safras, combustíveis, insumos e alimentos;
- risco extremo de incêndios florestais e de queima descontrolada de restos de cultura e capoeiras;
- falta de oxigênio e água quente em viveiros de peixe e lagos de várzea, com mortalidade de peixes;
- calendários tradicionais de plantio, na vazante e na terra firme, desorganizados.
A Embrapa chama de “seca verde” o cenário em que a vegetação continua verde, mas sem valor nutritivo e sem umidade efetiva no solo.
Zarc: seguir o zoneamento é medida obrigatória
O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), da Rede Zarc (Embrapa e MAPA), é tratado como a principal ferramenta de decisão. Ele indica as janelas de plantio por faixas de risco de 20%, 30% e 40% e leva em conta a água disponível no solo: AD1, arenoso; AD2, textura média; AD3, argiloso ou rico em matéria orgânica.
Neste El Niño, a nota considera obrigatório seguir os calendários e priorizar janelas de risco máximo de 20% em solos AD2 e AD3.
Na região, o Zarc cobre mandioca, milho, feijão-caupi, soja, arroz de sequeiro e de várzea, abacaxi, banana, citros, cacau, café canephora, dendê e açaí.
Lembrando que cumprir a portaria do Zarc do município é requisito legal para o crédito de custeio, o Proagro e o Proagro Mais e a subvenção ao seguro rural (PSR).
O que a Embrapa pede ao governo
A nota propõe ações ao poder público. Entre elas:
- Seguro e renda: agilizar perícias do Proagro, ampliar a subvenção ao seguro rural na região e criar garantia de renda emergencial para agricultores familiares em municípios sob decreto de emergência.
- Crédito: linhas de investimento com juros equalizados e prazos maiores (Pronaf Bioeconomia, Pronaf Semiárido/Amazônia e Pronamp) para irrigação por gotejamento, bombeamento solar, poços, cisternas e recuperação de pastagens, além de prorrogação simples das parcelas de quem comprovar o efeito da seca.
- Logística: estoques de milho em grão da Conab nos polos da Amazônia Legal, para ração, e dragagem preventiva de trechos críticos de rios.
- Assistência técnica e alertas: mobilizar a assistência técnica e criar boletins agrometeorológicos semanais, com Defesas Civis, INMET e Cemaden, para sindicatos e associações rurais.
- Apoio aos planos estaduais de Manejo Integrado do Fogo: conforme a Lei 14.944/2024, participar de comitês de prevenção a incêndios e de salas de crise.
- Comunicação: campanhas em rádio, mídias digitais e material impresso, em linguagem simples, sobre incêndios, conservação de água, manejo de pasto em emergência e uso do Zarc.
Segundo a nota, as medidas visam sobretudo os mais vulneráveis: agricultura familiar, ribeirinhos, quilombolas, povos indígenas e comunidades tradicionais.


