Resumo
- O relatório “Estado das Florestas no Mundo 2026” aponta que a falta de investimento e compromisso político torna inviável o cumprimento de metas climáticas, de biodiversidade e de segurança alimentar.
- O documento destaca 18 estudos globais, incluindo a restauração biocêntrica dos indígenas Xukuru na Caatinga (PE) e o Pacto Trinacional da Mata Atlântica (com meta de restaurar 1 milhão de hectares até 2030).
- No mundo, as florestas cobrem 32% da Terra e abrigam 80% da biodiversidade terrestre, mas perderam 489 milhões de hectares entre 1990 e 2025, além de terem 460 milhões de hectares degradados.
- O Brasil avança com a Lei 12.651 (Código Florestal) e o Decreto 8.972/2017, que estabelece a meta de restaurar 12 milhões de hectares até 2030 por meio da Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa.
- O órgão propõe quatro caminhos: fortalecer direitos das comunidades, atuar em escala de paisagem, mobilizar financiamentos e garantir leis coerentes.
- Segundo o relatório, restaurar mais de 1 bilhão de hectares degradados pode gerar US$ 1,8 trilhão por ano em benefícios, com um retorno social estimado de oito para um.
Sem investimento e compromisso político, o cumprimento de metas globais de segurança alimentar, biodiversidade, clima e desenvolvimento sustentável na restauração de florestas torna-se inviáONUvel. O alerta consta no relatório “Estado das Florestas no Mundo” de 2026, lançado nesta semana pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
O documento traz 18 estudos de caso globais, destacando duas iniciativas de destaque no Brasil: a restauração biocêntrica conduzida pelo povo indígena Xukuru na Caatinga (PE), focada em áreas sagradas e no uso de conhecimento tradicional com barreiras físicas para retenção de água e regeneração do solo, e o Pacto Trinacional da Mata Atlântica, que une Brasil, Argentina e Paraguai na meta de restaurar 1 milhão de hectares até 2030 e 15 milhões até 2050 por meio de paisagens multifuncionais e monitoramento via satélite.
Panorama global e metas brasileiras
No âmbito nacional, o relatório destaca os avanços na legislação brasileira. A Lei 12.651 obriga a recuperar a vegetação nativa em áreas de preservação permanente e em reservas legais, e o Decreto 8.972, de 2017, colocou essas obrigações em prática ao criar a Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa. A meta da política é restaurar 12 milhões de hectares até 2030.
Globalmente, as florestas cobrem 4,14 bilhões de hectares, cerca de 32% da superfície terrestre. Guardam 714 bilhões de toneladas de carbono e abrigam até 80% da biodiversidade terrestre. Quase um terço da população mundial depende delas para se alimentar e viver.
Entre 1990 e 2025, porém, o desmatamento eliminou cerca de 489 milhões de hectares, e mais de 460 milhões estão degradados. Todo ano, em torno de 127 milhões de hectares de floresta são atingidos por incêndios, além dos danos causados por insetos, doenças e eventos climáticos extremos. O relatório diz que ficar parado custa muito mais do que restaurar.
Governos de 91 países e regiões se comprometeram a destinar mais de 190 milhões de hectares à restauração de florestas. O relatório avalia, porém, que o progresso é insuficiente.
“O relatório deixa claro que a restauração de florestas e paisagens é mais do que uma prioridade ambiental — é um investimento estratégico em sistemas agroalimentares resilientes e no desenvolvimento rural. A restauração tardia ou mal planejada aumentará os custos a longo prazo, agravará as desigualdades e poderá condenar as paisagens a trajetórias insustentáveis”, declara Qu Dongyu, diretor-geral da FAO, na apresentação do documento
O que a FAO propõe
Com base em experiências de vários países, incluindo o Brasil, o documento aponta quatro caminhos:
- fortalecer as pessoas e os seus direitos;
- restaurar em escala de paisagem;
- mobilizar financiamento e modelos de negócio que sustentem a restauração;
- e criar políticas, instituições e leis coerentes entre si.
Segundo a FAO, restaurar mais de 1 bilhão de hectares degradados poderia gerar US$ 1,8 trilhão por ano em benefícios. O relatório também calcula que investir US$ 2,6 trilhões ao longo de 15 anos para conter a degradação do solo e a seca daria um retorno social de oito para um.


