Resumo
- A conservação de áreas florestais dentro de propriedades rurais é fundamental para aumentar a produtividade e proteger safras contra eventos climáticos.
- Dados do projeto de pesquisa Galo (Ipam) indicam que a perda de vegetação pode aumentar a temperatura média local em até 3°C.
- O aumento da temperatura gera impacto direto nas lavouras: a cada grau que a média sobe, a soja perde 6% de produtividade e o milho recua 8%.
- Sem a cobertura vegetal para manter a umidade do ar e amenizar o calor, as perdas combinadas chegam a cerca de 20% nas propriedades analisadas.
- O debate ocorreu durante a 2026 World AgriFood Innovation Conference, na China, em painel organizado por instituições brasileiras e chinesas..
Aumentar a produtividade no campo e proteger as safras contra o clima passa por conservar mais floresta dentro das propriedades rurais — não por desmatar mais. O alerta é de André Guimarães, diretor executivo do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e Enviado Especial da Sociedade Civil da COP30, durante painel na “2026 World AgriFood Innovation Conference”, realizado na tarde desta terça-feira (15), horário da China.
O painel “O papel da agricultura regenerativa para a resiliência climática” foi organizado pelo Ipam em conjunto com o ICV (Instituto Centro de Vida), o O Mundo Que Queremos, a CAU (Universidade de Agricultura da China) e a Eccon Soluções Ambientais, reunindo representantes da sociedade civil brasileira e pesquisadores de instituições chinesas dedicadas à produção sustentável e ao desenvolvimento territorial.
“Esse paradigma de eliminar a natureza para abrir áreas de plantio tem que ser repensado. Existe uma conexão muito forte entre a área de cultivo e a floresta, e podemos ver isso apenas observando a altura das plantas e a qualidade do solo à medida que nos aproximamos de um fragmento de floresta dentro de uma propriedade rural. Para produzir mais, não precisamos desmatar mais, mas redesenhar as nossas paisagens produtivas”, defendeu Guimarães.
Ele apresentou dados coletados pelo Galo (Global Assessment from Local Observations), projeto de pesquisa do Ipam, na Estação de Pesquisa Tanguro, em Mato Grosso, sobre a interação entre lavouras e fragmentos de floresta.
Cada grau a mais custa produtividade
Segundo estudo, a perda de vegetação está diretamente ligada ao aumento das temperaturas, com variação de até 3°C na média anual das propriedades analisadas. A pesquisa mostra ainda que, a cada grau que a temperatura média de uma propriedade sobe, a soja perde 6% de produtividade e o milho, 8%.
Somadas, essas perdas chegam a cerca de 20% nas propriedades estudadas — e isso antes mesmo de contabilizar o aquecimento adicional causado pelas mudanças climáticas globais ou por fenômenos como o El Niño.
“Em resumo, precisamos de mais florestas nos sistemas agropecuários. É ela que protege a lavoura contra as ondas de calor, as secas e as quebras de safra. Sem ela, o ar fica mais seco porque existe menos água disponível no sistema e as temperaturas aumentam, o que afeta diretamente a produtividade das principais commodities exportadas pelo Brasil”, completa Guimarães.


