Resumo
- Um estudo do think tank britânico IISS aponta que entre 2021 e 2022, 34% do ouro extraído no Brasil veio de garimpo irregular, atividade que se conectou ao tráfico de drogas, trabalho forçado e exploração sexual na Amazônia.
- O alto preço internacional do ouro, a fiscalização insuficiente e a alta informalidade (entre 75% e 85% na região) atraíram facções criminosas locais e internacionais para controlar a logística e o escoamento.
- Em 2022, cerca de 77% das áreas de garimpo no País eram ilegais — muitas em Terras Indígenas e Unidades de Conservação —, respondendo por até 15% do desmatamento na Amazônia, além de causarem contaminação por mercúrio e ameaças a povos originários.
- Com o fortalecimento da fiscalização ambiental e novas regras de rastreabilidade a partir de 2023, a fatia de ouro irregular caiu para cerca de 8% entre 2022 e 2025.
- O estudo alerta para o avanço da influência política de grupos ligados ao garimpo ilegal, com reflexos no enfraquecimento de leis de proteção ambiental e de licenciamento.
Um em cada três gramas de ouro extraído no Brasil entre 2021 e 2022 veio de garimpo irregular — e essa cadeia hoje se conecta a tráfico de drogas, trabalho forçado e exploração sexual na Amazônia. É o que aponta um estudo do think tank britânico IISS (International Institute for Strategic Studies), que mapeou como o garimpo na região deixou de ser um problema isolado de desmatamento e virou uma peça de uma engrenagem criminosa maior — batizada pelos pesquisadores de “narcogarimpo”.
A combinação é simples: preços altos do ouro no mercado internacional, fiscalização insuficiente por parte de estados e União, e um setor com altíssima informalidade — estimada entre 75% e 85% na região amazônica, contra 40% a 50% na média mundial, como destaca a Exame.
Esse cenário atraiu facções criminosas, que hoje disputam território e atacam populações locais, principalmente povos indígenas, para controlar a atividade.
Segundo o levantamento, esses grupos não necessariamente extraem o ouro com as próprias mãos — mas controlam a logística que viabiliza a extração e o escoamento da produção. Atuam tanto facções de presídios brasileiros quanto organizações internacionais, disputando rotas e mercados ligados à mineração ilegal.
Os números do problema
O estudo estima que entre 2021 e 2022, cerca de 34% do ouro produzido no Brasil teve origem irregular. Em 2022, aproximadamente 77% das áreas de garimpo no país apresentavam sinais de ilegalidade — incluindo dentro de Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Nessas áreas de influência do garimpo, o desmatamento também cresceu.
Para dimensionar o peso da mineração no desmatamento amazônico como um todo: estima-se que a extração ilegal de ouro responda por 10% a 15% da perda florestal na região, além de contaminação por mercúrio e degradação mais ampla dos ecossistemas — um impacto menor que o da agricultura e da pecuária, mas relevante e crescente.
Um recuo recente
Há um dado que aponta melhora: o fortalecimento da fiscalização ambiental a partir de 2023, somado a mecanismos de rastreabilidade do ouro, ajudou a reduzir a fatia de origem irregular de 34% (2021-2022) para cerca de 8% entre 2022 e 2025 — depois de um pico registrado no fim do governo Jair Bolsonaro.
Mas o estudo do IISS chama atenção para um obstáculo que pode travar esse avanço: o crescimento do poder político dos grupos ligados ao narcogarimpo nos estados amazônicos.
Um sinal disso, segundo a análise, já aparece no Congresso Nacional, com a aprovação de projetos que enfraquecem o licenciamento ambiental, reduzem a fiscalização e abrem caminho para mineração dentro de Terras Indígenas.
Por que isso importa
A bacia amazônica ocupa 8,4 milhões de km² em oito países e um território, concentra cerca de 30% da biodiversidade do planeta e tem papel central tanto no ciclo global de água doce quanto na absorção de carbono. O Brasil concentra mais de 60% da floresta amazônica e responde por 85% de toda a perda florestal da região — sendo também onde a atividade de garimpo, formal e ilegal, mais cresce.
Essa degradação afeta diretamente quase 380 povos indígenas identificados na Amazônia, dos quais 136 vivem em isolamento voluntário. Só no Brasil, o Censo 2022 registrou mais de 1,6 milhão de pessoas indígenas, boa parte delas na Amazônia brasileira — população que está na linha de frente dos impactos do garimpo ilegal sobre território, saúde e segurança.


