Resumo
- A máquina de chuva produzida pela Amazônia está sendo alterada. De acordo com Paulo Artaxo, físico da USP, que estuda a região há 40 anos, a temperatura, volume de chuva e luz disponível para fotossíntese mudou nos últimos 40-50 anos, por causa das mudanças que aerossóis provocam nas nuvens.
- Com um aquecimento global estimado em 2,8°C pela trajetória atual, o Brasil e a Amazônia podem registrar aumentos de temperatura de até 4°C, ameaçando ecossistemas e populações tradicionais.
- Além do desmatamento, o bioma sofre com o calor, a seca e o fogo, fazendo com que plantas fixem menos carbono e transformem a floresta em emissora de CO₂.
- Durante a estação de incêndios, a poluição do ar na Amazônia supera os parâmetros da OMS e atinge níveis piores que os da cidade de São Paulo.
- Artaxo destaca o risco do ponto de não retorno até 2050 e defende o fim do desmatamento, a transição energética e ações imediatas antes que o ecossistema sofra transformações irreversíveis.
Já se sabe que a Amazônia funciona como uma máquina de produzir chuva. As árvores lançam vapor d’água e partículas na atmosfera, que se transformam em nuvens e voltam como chuva sobre a própria floresta. É um ciclo fechado, construído ao longo de milhões de anos,
“Isso mostra um equilíbrio, uma harmonia entre o clima e o funcionamento biológico dos ecossistemas”, explica o físico Paulo Artaxo.
Esse processo, porém, está sendo alterado diante dos olhos de Artaxo, que estuda a região há quatro décadas.
Formado em Física pela USP, com mestrado em Física Nuclear e doutorado em Física Atmosférica, Artaxo participou em 1985 de um dos primeiros experimentos com apoio da Nasa na região amazônica — época em que pouco se sabia sobre como as partículas emitidas pela floresta e pelas queimadas interferem no clima.
Hoje ele preside o conselho do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), é professor titular da USP e integra o IPCC, o painel de cientistas da ONU que reúne as principais evidências mundiais sobre mudança do clima — grupo que dividiu o Prêmio Nobel da Paz em 2007.
O que já mudou na floresta
Ao longo de décadas acompanhando a região, Artaxo observou alterações na temperatura, na quantidade de chuva e na luz disponível para a fotossíntese — o processo pelo qual as plantas transformam luz solar em energia.
“As mudanças que as partículas de aerossóis fazem nas nuvens mudam a precipitação. E isso faz com que o ecossistema todo, que depende de radiação, chuva e água, tenha se modificado profundamente ao longo dos últimos 40 ou 50 anos”, afirma.
Se as emissões de gases poluentes seguirem no ritmo atual, Artaxo estima um aquecimento médio global de cerca de 2,8ºC. Mas no Brasil e na Amazônia, o aumento deve ser bem maior: algo em torno de 4ºC.
Na prática, isso pode alterar desde o funcionamento da vegetação até a quantidade e a variedade de peixes nos rios — o que afeta diretamente a alimentação e o modo de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais que dependem da pesca.
A floresta perde força – e o ar também piora
O desmatamento não é o único problema. Segundo Artaxo, mesmo áreas que continuam de pé estão perdendo carbono e capacidade de cumprir suas funções ecológicas. As causas se somam: temperatura mais alta, chuvas menos regulares, incêndios, abertura de estradas e fragmentação da mata. O calor também prejudica diretamente a fotossíntese.
“As plantas estão fixando menos carbono e aumentando o processo de respiração, que emite CO₂ à atmosfera. Portanto, o que a gente observa é que a floresta está perdendo carbono mesmo sem desmatamento”, alerta.
Outro impacto importante é a época de queimadas, quando a qualidade do ar na região piora de forma concreta.
“Durante três ou quatro meses todos os anos, o ar da floresta amazônica, por causa da poluição, tem uma qualidade pior do que a recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde). E os níveis de poluentes têm valores mais altos do que a gente observa na poluída cidade de São Paulo”, exemplifica o físico.
Ciência avança, decisões políticas ficam para trás
Artaxo também coordena o Ceas (Centro de Estudos Amazônia Sustentável), da USP, que reúne pesquisadores de diferentes áreas para propor caminhos de desenvolvimento sustentável para a região. Para ele, o conhecimento científico sobre as causas e consequências da crise climática avançou mais rápido do que as respostas políticas para enfrentá-la.
“As decisões políticas são tomadas com base em interesses econômicos, não com base em interesses ambientais ou climáticos”, diz.
Entre as medidas que considera urgentes estão reduzir o uso de combustíveis fósseis, avançar na transição energética, zerar o desmatamento, recuperar áreas degradadas e investir em adaptação.
Até onde a floresta aguenta?
Uma pergunta ainda sem resposta definitiva na ciência é até que ponto a Amazônia consegue resistir às mudanças previstas para as próximas décadas — e se existe um limite a partir do qual o ecossistema muda de forma irreversível, transformando-se em algo diferente de uma floresta tropical.
“Será que a floresta amazônica vai atingir esse ponto de não retorno em 2050? A ciência está trabalhando duro para tentar responder essas questões”, diz Artaxo.
Para ele, a incerteza é justamente o motivo para agir logo.
“Quanto mais cedo acabarmos com a exploração e o uso de combustíveis fósseis, diminuindo o aquecimento global, e quanto mais cedo acabarmos com o processo predatório em todos os nossos ecossistemas, melhor vai ser a chance de sobrevivência de um ecossistema delicado e importante como o ecossistema amazônico.”


