Resumo
- Mapeamento da Embrapa revela que os 121 mil hectares de cacau no Pará e em Rondônia cresceram quase em sua totalidade sobre pastagens e áreas já alteradas, sem avançar sobre a mata nativa.
- O Pará lidera a produção com 116.436 hectares (alta de 33% em dois anos), concentrados principalmente na região da Transamazônica e em Tomé-Açu, com forte base na agricultura familiar.
- Do crescimento recente no estado, 63% ocorreu a pleno sol e 37% em sistemas agroflorestais, sinalizando a necessidade de mais incentivos públicos para o cultivo consorciado.
- ORondônia teve seu primeiro mapeamento completo, somando 5.340 hectares, com perfil predominantemente agroflorestal (62%) e forte presença de pequenos produtores.
- O cruzamento com dados do Inpe indica que 96% da área no Pará e 98% em Rondônia foram desmatadas antes de 2020, o que ajuda exportadores a comprovar a origem sustentável exigida pela União Europeia.
- Além de gerar renda para a agricultura familiar, o cacau ajuda a recuperar solos degradados e a devolver produtividade a pastos abandonados na Amazônia.
Um novo mapeamento mostra que o cacau cresceu na Amazônia sem avançar sobre a floresta nativa. O levantamento, feito pela Embrapa em parceria com outras instituições, identificou 121 mil hectares plantados com cacau no Pará e em Rondônia — e a quase totalidade dessa área está sobre pastagens e terrenos já alterados no passado, não sobre mata derrubada recentemente.
O dado é importante porque o cacau é uma cultura de exportação diretamente afetada pelas novas regras ambientais internacionais, e o mapeamento oferece justamente a prova de que os produtores precisam para comprovar essa origem.
O Pará é hoje o grande protagonista da cacauicultura amazônica. O estado tem 116.436 hectares plantados, espalhados por 61 municípios — um salto de 33% em relação a 2022, quando a área era de 87.309 hectares.
Na prática, foram quase 30 mil hectares novos em apenas dois anos.

Os municípios que mais produzem cacau no Pará são Medicilândia (35.203 hectares), Uruará (17.024 hectares), Brasil Novo (10.162 hectares), Altamira (7.301 hectares) e Tomé-Açu (6.981 hectares) — os quatro primeiros na região da Transamazônica, e Tomé-Açu conhecido por ser referência em sistemas agroflorestais.
O estudo mostra que a produção paraense tem forte presença da agricultura familiar: foram mapeadas 31.843 áreas de cultivo, e quase 85% delas têm até 5 hectares.
Um ponto de atenção do documento é que a área que cresceu entre 2022 e 2024, 63% foi plantada em monocultivo a pleno sol, e 37% em sistemas agroflorestais — que misturam o cacau com árvores e outras culturas.
Para os pesquisadores, isso mostra que o produtor tem respondido mais ao retorno econômico imediato do plantio a pleno sol, e reforça a necessidade de mais incentivo público para quem opta pelo modelo agroflorestal, que traz mais diversificação e benefícios ambientais.
Rondônia tem primeiro mapeamento
Rondônia ganhou, pela primeira vez, um mapeamento completo da própria cacauicultura, que serve agora como ponto de partida para acompanhar a evolução da cultura no estado. A área plantada soma 5.340 hectares em 51 municípios, e o perfil de cultivo é diferente do paraense: 62% da área está em sistemas agroflorestais, e 38% em plantio a pleno sol.
Assim como no Pará, a produção rondoniense é pulverizada entre pequenos produtores: são 38.108 áreas mapeadas, com 75% delas até 5 hectares. Os municípios com maior área plantada são Jaru, Porto Velho, Theobroma, Ouro Preto do Oeste e Mirante da Serra.
Ausência de desmatamento
A pesquisa cruzou os dados do cacau com os do TerraClass e do Prodes — os sistemas de monitoramento de desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O resultado: 96% da área de cacau no Pará e 98% em Rondônia estão em locais que já haviam sido desmatados antes de 2020.
Esse número tem peso direto no mercado internacional. A União Europeia proíbe, desde o novo regulamento antidesmatamento (EUDR), a importação de commodities produzidas em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
Segundo o mapeamento, apenas 3,9% da área de cacau no Pará e 2% em Rondônia foram implantados em áreas desmatadas depois dessa data — um índice baixo, que ajuda exportadores a comprovar a origem sustentável da produção.
O estudo também identificou 11.444 hectares no Pará e quase 149 hectares em Rondônia de cacau plantado sob a sombra direta de floresta nativa, um sistema que preserva a cobertura florestal enquanto gera renda.
Para o pesquisador Adriano Venturieri, da Embrapa Amazônia Oriental e coordenador do estudo, o cacau tem papel estratégico na região: além de gerar renda para famílias rurais, recupera solos degradados e devolve produtividade a áreas que antes eram pasto abandonado.
“Esse trabalho é instrumento de rastreabilidade indispensável para atender tanto às exigências da legislação brasileira quanto ao rigor do mercado internacional”, diz.
Segundo ele, o desafio agora não é apenas plantar mais cacau, mas garantir que essa expansão continue acontecendo com qualidade ambiental e capacidade de competir no mercado internacional.
Vitor Stella, do CocoaAction Brasil, reforça que conhecer onde e como o cacau está se expandindo ajuda a direcionar políticas públicas, investimentos e assistência técnica para onde são mais necessários — com o objetivo de aumentar a renda do produtor sem repetir o padrão de desmatamento de outras cadeias produtivas na Amazônia.
“Quando sabemos para onde a cultura está avançando, em quais sistemas produtivos e sob quais condições, conseguimos identificar gargalos, orientar melhor as políticas públicas e direcionar investimentos e assistência técnica para onde eles são mais necessários”, afirma.


