Resumo
- Pesquisadores da USP estão criando um mapa capaz de identificar a região exata onde uma árvore foi cortada na Amazônia. A ideia é criar mais uma ferramenta no combate ao comércio ilegal de madeira.
- Isso porque a água e os nutrientes absorvidos pela árvore variam quimicamente conforme a região da floresta e esse registro fica gravado na madeira.
- Diferente de documentos físicos (como o DOF), a composição química da madeira é inviolável e impossível de ser alterada após o corte.
- O método foi desenvolvido pela equipe de cientistas para ser fornecido e aplicado em parceria com peritos da Polícia Federal nas investigações de campo.
- Para aumentar a exatidão e reduzir margens de erro, os pesquisadores estão analisando múltiplos elementos (oxigênio, carbono, nitrogênio e estrôncio) em mais de 800 árvores coletadas na floresta.
A extração ilegal de madeira continua sendo um dos principais motores do desmatamento na Amazônia. Hoje, para comprovar se um lote de madeira foi retirado de uma área autorizada, a fiscalização depende de análises visuais do tronco, mapeamento da espécie e conferência de documentos de transporte — papéis que, infelizmente, ainda podem ser fraudados.
Uma reportagem da Agência Fapesp mostra como pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP) estão trabalhando para fechar essa brecha, ao desenvolverem uma espécie de “RG químico” da madeira, imune a falsificações.
Como isso é possível?
Toda planta absorve água e nutrientes do solo e do ar da região onde cresce. No entanto, os elementos químicos que formam essa água e esse solo (como o oxigênio e o carbono) não são todos idênticos: eles existem na natureza em variações mais “leves” e mais “pesadas”, chamadas pela ciência de “isótopos’.
A grande sacada da pesquisa da USP é que a proporção desses isótopos varia de acordo com a geografia da Amazônia:
- O caminho das chuvas: A umidade do ar vem do Oceano Atlântico (a leste) e avança em direção ao oeste do continente. Conforme chove pelo caminho, a água vai perdendo preferencialmente as suas moléculas de oxigênio mais pesadas.
- A marca registrada na árvore: Ao absorver a água da chuva no solo, a árvore registra essa composição exata em sua madeira. Assim, uma árvore do oeste da Amazônia naturalmente carrega menos oxigênio pesado do que uma árvore do leste.
Ao mapear essas variações por toda a floresta (criando o que os cientistas chamam de isoscape ou mapa isotópico), a equipe está construindo um banco de dados geográfico.
Se um caminhão for apreendido com documentos dizendo que a madeira veio de determinado ponto do Pará, a perícia pode analisar o material e checar se a sua “assinatura química” realmente bate com a região declarada.
Para uso nas investigações da PF
A principal vantagem desse método, liderado pelo professor Luiz Antonio Martinelli, é a segurança. De acordo com ele, é quimicamente impossível alterar os isótopos armazenados na madeira de um tronco já cortado.
Para colocar a inovação em prática, o grupo da USP já possui parcerias com peritos da Polícia Federal (PF). O objetivo é fornecer o modelo desenvolvido na universidade para que os agentes possam empregar a metodologia diretamente nas perícias e investigações de campo.
Os desafios para aumentar a precisão
Apesar do avanço, a ferramenta desenvolvida pelos cientistas passa por aperfeiçoamentos antes de ser adotada em larga escala.
Os cientistas descobriram, por exemplo, que usar somente o oxigênio permite delimitar a origem, mas a margem de incerteza ainda cobre uma área grande demais. Por isso, a equipe da USP já está adicionando outros elementos ao mapa, como carbono, nitrogênio e estrôncio, além de avaliar a concentração total de certos minerais.
Outra dificuldade é que, na faixa conhecida como “arco do desmatamento”, a destruição acelerada dificulta a coleta de amostras de árvores nativas para os pesquisadores ampliarem o banco de dados.
Para solucionar essas limitações, o grupo de pesquisa está expandindo o trabalho de campo. Até o momento, os cientistas já coletaram e analisaram amostras de 800 árvores em 63 pontos da Amazônia.
A equipe também estuda a possibilidade de usar novas abordagens químicas para além da medida de isótopos, como a criação de mapas que mostrem a diferença de concentração de determinados elementos químicos na madeira, o chamado elementalscape.
O objetivo é entregar às autoridades uma ferramenta de precisão cirúrgica no combate ao crime ambiental.
Fonte: Agência Fapesp


