Resumo
- O selo Beef on Track (BoT) estreia em Tianjin — principal porto de entrada da carne brasileira na China —, prometendo repetir a revolução de mercado da década de 2020 e pagar um prêmio extra de até 10% para produtores sustentáveis.
- Criado pelo Imaflora, o BoT é o primeiro sistema internacional a atestar a conformidade socioambiental e o desmatamento zero da pecuária brasileira, unindo grandes importadores asiáticos e auditorias locais.
- A iniciativa visa abocanhar uma fatia ainda maior no país que consome 47% da carne exportada pelo Brasil, alinhando a produção a pasto do país à nova exigência chinesa por sustentabilidade e bem-estar animal.
- O projeto piloto já conta com a assinatura da Tianjin Meat Association (TMA), o apoio de mais oito gigantes da logística e o interesse de grandes distribuidores da província de Henan.
Porta de entrada para quase metade de toda a carne bovina que o Brasil exporta para a China — mercado que absorve mais de 47% do volume nacional segundo o Beef Report 2026 da Abiec —, a cidade portuária de Tianjin será o palco do projeto piloto de implementação da certificação Beef on Track (BoT), o primeiro selo internacional criado para rastrear, auditar e garantir que a carne consumida do outro lado do mundo seja 100% livre de desmatamento e abusos socioambientais.
A engrenagem dessa transformação começou a girar com a assinatura de uma carta de intenções entre a Tianjin Meat Association (TMA) e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), que desenvolveu o selo em outubro do ano passado.
De acordo com Marina Guyot, diretora de Clima e Desmatamento Zero do Imaflora, o plano já conta com o suporte técnico da auditoria chinesa Chinese Quality Mark Certification Group (CQM), que ficará encarregada de vasculhar e chancelar cada elo da cadeia de custódia desses produtos.
“Utilizando o desenvolvimento verde e sustentável como ponte, buscamos aprofundar a cooperação entre as indústrias de carne da China e do Brasil. Da logística da cadeia de suprimento refrigerada ao acesso ao mercado, dos padrões de qualidade aos canais comerciais, cada interação reflete nosso compromisso compartilhado de viabilizar a circulação bidirecional de produtos cárneos de alta qualidade”, declarou Xing Yanling, presidente da TMA.
Xing fez um apelo a que os dois países trabalhem juntos para alcançar uma carne bovina rastreável, livre de desmatamento, verde e sustentável.
“Como importante polo de importação de commodities brasileiras, Tianjin está aproveitando sua posição na cadeia produtiva para promover a cooperação mutuamente benéfica entre os dois países no setor de comércio de proteína animal. Esperamos que essa parceria, que abrange os hemisférios Norte e Sul, produza resultados ainda mais frutíferos à mesa”, disse ela.
O pacto verde foi firmado durante a Tianjin International Shipping Industry Expo (4ª Exposição Internacional de Transporte Marítimo). Para ganhar tração e capilaridade no mercado asiático, o acordo foi endossado por outras oito gigantes locais .
A ofensiva diplomática e ambiental do Imaflora também avançou rumo ao interior do país, alcançando a província de Henan. Em encontros com grandes distribuidores, como o Dahe Holding Group, os técnicos brasileiros apresentaram o selo para investidores locais interessados em transformar a sustentabilidade em um ativo de diferenciação comercial.
Prêmio de 10% e o “boi China”
O Brasil tem hoje um estoque de 2,1 milhões de toneladas de carne prontas para exportação que já cumprem à risca as exigências do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) Carne Legal na Amazônia Legal, concentradas principalmente em Mato Grosso e no Pará.
Parceira histórica do projeto, a TMA quer converter essa disponibilidade em contratos de compra, mantendo a meta de importar 50 mil toneladas de carne certificada ainda em 2026. A grande novidade, contudo, está no bolso: a associação chinesa estuda pagar um prêmio financeiro de até 10% de adicional no preço para os pecuaristas que atingirem os critérios mais rigorosos do BoT.
A qualidade a que os chineses se referem diz respeito à conservação dos recursos naturais, ao equilíbrio climático (o país quer neutralidade de carbono até 2060) e ao bem-estar e qualidade com a qual os animais são criados – no Brasil, a maior parte do rebanho é criada a pasto, o que, na perspectiva chinesa, impacta positivamente a vida dos animais.
Esse bônus financeiro tem um objetivo claro: repetir o fenômeno que ficou conhecido no campo como “boi China” no início da década de 2020. Naquela época, a exigência dos frigoríficos por animais rastreados e abatidos precocemente (com menos de 30 meses) desencadeou uma modernização tão intensa nas fazendas brasileiras que o ganho de eficiência poupou a atmosfera de receber 5,80 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente (CO²) apenas em 2022.
O novo paladar de Pequim
A força da TMA para guiar essa transição não é desprezível. Fundada em 1992, a associação costura as estratégias de criadores, indústrias, transportadoras e varejistas em parceria com o governo de Pequim e a província de Hebei, tendo como norte a segurança alimentar. E, na visão atual do mercado chinês, o conceito de “carne de qualidade” mudou radicalmente.
“Quando o assunto é qualidade da carne, o conceito chinês vai muito além do produto consumido. A busca não se restringe a características como maciez, marmoreio ou sabor. Ela abrange também critérios de sustentabilidade”, explica Louise Nakagawa, coordenadora da certificação BoT no Imaflora.
O país estipulou uma meta agressiva de alcançar a neutralidade de carbono até 2060 e, por isso, passou a exigir critérios ecológicos rigorosos. Saber que o boi brasileiro é criado majoritariamente solto no pasto — o que eleva os índices de bem-estar animal — somado à garantia de cumprimento do Código Florestal confere à proteína nacional o status de um produto ético e verde.
Ao unir a tradição da pastagem com o monitoramento tecnológico do BoT, o Brasil se posiciona para liderar o mercado de alta gastronomia sustentável na Ásia, inspirando a regularização ambiental de propriedades em outros biomas além da Amazônia.
O evento de lançamento na ACSP foi chancelado pelo presidente da entidade, Alfredo Cotait Neto (também líder da FACESP e da CACB), que aproveitou o encontro para celebrar a assinatura de um acordo de cooperação mútua entre o Conselho do Agronegócio da ACSP e a Sociedade Rural Brasileira (SRB) focado no fortalecimento institucional do setor.


