Uma área de vegetação nativa equivalente ao tamanho do Estado de Santa Catarina — cerca de 9 milhões de hectares — pode ser legalmente desmatada em propriedades privadas na Amazônia Legal. O alerta é do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que acaba de publicar um artigo na revista científica internacional Frontiers apresentando soluções para evitar que esse cenário se concretize.
O estudo propõe três modelos de negócio escaláveis para oferecer alternativas econômicas a quem preserva.
“É preciso acabar com todo tipo de desmatamento, legal e ilegal. Se não ampliarmos o leque de ofertas de recursos para a conservação, por meio de incentivos, a segurança alimentar do planeta pode estar comprometida”, afirma André Guimarães, diretor executivo do IPAM e um dos autores do trabalho.
A pesquisa reforça que a conservação não é apenas uma questão ambiental, mas econômica. A vegetação nativa regula o clima e sustenta o sistema agrícola; sem ela, o prejuízo é direto: para cada grau de aumento na temperatura, a produção de soja pode cair 6% e a de milho, 8%. Além disso, o desequilíbrio climático altera o regime de chuvas, resultando em perdas severas para a produção.
As propostas surgiram da experiência prática do projeto CONSERV. Entre 2021 e 2024, a iniciativa protegeu 20.707 hectares na Amazônia e no Cerrado através de pagamentos anuais a produtores que decidiram manter a floresta em pé além do exigido pelo Código Florestal.
“A construção dos modelos foi participativa, envolvendo consultas e conversas com os proprietários rurais. A partir desse diálogo e amadurecimento, chegamos aos três modelos apresentados no artigo”, explica o pesquisador e coautor Álvaro Batista.
As três rotas para a conservação
O artigo detalha caminhos que podem ser adotados por investidores privados e gestores públicos:
- Crédito de Carbono: Utilizar o mercado global para atrair recursos, pagando pela manutenção ou aumento dos estoques de carbono e pelas emissões evitadas.
- Setor de Commodities: Financiamento por parte de grandes comerciantes de grãos para garantir acesso a mercados exigentes ou o pagamento de um valor adicional por produtos de fazendas com “desmatamento zero”.
- Crédito Sustentável: Oferecer empréstimos com juros menores e condições facilitadas para produtores que preservam áreas passíveis de desmate legal, substituindo o pagamento direto por benefícios financeiros que aumentam o lucro da fazenda a longo prazo.
Para os autores, a união desses mecanismos cria um sistema flexível e capaz de crescer.
“Há um senso de urgência e necessidade de inovação para valorizar aqueles que mantêm a floresta em pé. Essas são possibilidades que propomos para neutralizar o desmatamento legal e, ao fazer isso, preservar a resiliência da agricultura para o futuro”, conclui Guimarães.


