No nordeste do Pará, a cerca de 100 quilômetros de Belém, uma cidade de pouco mais de 16 mil habitantes transforma o Carnaval em um espetáculo de criatividade popular. Em São Caetano de Odivelas, o coração da folia nasce nas mãos dos moradores, que reaproveitam materiais recicláveis e levam o artesanato para as ruas da cidade. Juntos, o Boi de Máscaras, os Cabeçudos e Pierrôs levam música, diversão e improviso às ruas.
Embora a tradição esteja perto de atingir o primeiro centenário, completando 98 anos em 2026, o movimento saiu das margens e ganhou o status oficial de identidade do Carnaval local em 2006, quando o município passou a investir em uma marca própria para a sua folia. O resultado é uma celebração singular que funde tradição, invenção e muito improviso.
Diferente do tradicional bumba meu boi, o Boi de Máscaras não segue um roteiro fixo; sua encenação nasce no calor do momento, conforme os personagens interagem com o público. Para dar vida ao boi, são necessários dois brincantes que se movimentam em sincronia para formar o corpo do animal. Ao redor dele, orbitam 18 personagens que ampliam o universo da brincadeira: zebras, búfalos e até dinossauros entram na cena.
Cabeçudos na frente
Na frente do cortejo, os Cabeçudos abrem caminho com passos próprios, arrancando risadas da multidão. A base da fantasia vem de um objeto rudimentar e onipresente na vida amazônica: o paneiro, cesto tradicional trançado com cipó e usado para transportar açaí e mandioca. Nas mãos dos artesãos odivelenses, esses cestos ganham uma nova e lúdica função.
Encapados com papel machê e pintados com expressões caricatas, os paneiros transformam-se em enormes cabeças que cobrem até a metade do corpo do brincante, criando figuras desproporcionais e divertidas. Enquanto as pernas ficam à mostra, vestidas com trajes que lembram ternos, os braços são encaixados por dentro da fantasia, conferindo um movimento peculiar ao personagem.
Já os Pierrôs ostentam máscaras de papel e adereços metálicos. A história local preserva a memória de que, nos tempos anteriores à eletricidade, esses personagens carregavam velas acesas nos candelabros que usam sobre a cabeça para iluminar a festa.
Sustentabilidade e tradição hereditária
Ivete Sousa, costureira e artesã nascida na cidade e hoje residente em Marituba, na Grande Belém, é testemunha de como esse saber é transmitido e garante a sustentabilidade da folia.
“Aprendemos desde criança a lidar com papel e a fazer as cabeças na escola e em casa. Como agora moro aqui, faço umas fantasias para os pierrôs e ajudo a fazer as cabeças quando volto pra lá. Meu retorno no Carnaval é mais que garantido e minhas clientes já sabem disso”, explica.
Ivete reforça que a durabilidade dos itens produzidos permite que, após a quarta-feira de cinzas, as peças se tornem objetos de decoração e símbolos culturais.
“Se laquear direitinho (impermeabilizar), dura 10 anos ou mais. Os cabeçudos a gente usa outra vez na festa junina e depois guarda pro próximo ano, mas as pequenas do pierrô dão pra decorar a casa tranquilo no resto do ano, daí quando chega a festa só dá uma limpada, empresta pras visitas brincarem também”, comenta.
Programação 2026
A atmosfera sonora da festa fica por conta das bandas de fanfarra, que embalam o público com frevo e marchinhas, unindo o reaproveitamento de materiais à efervescência rítmica.
Em 2026, a folia ocorre entre os dias 14 e 18 de fevereiro, ocupando a nova orla de São Caetano de Odivelas. A cada dia, um dos bois tradicionais da região assume o papel de patrono e conduz o cortejo, dividindo a programação com concursos de fantasias e shows de artistas regionais.


