O ecossistema de inovação no agronegócio segue em expansão no Brasil, com destaque especial para o estado do Pará e as regiões Norte e Nordeste. Esse é uma das conclusões da sexta edição do Radar Agtech Brasil, estudo elaborado pela Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens.
Além do crescimento numérico de iniciativas nessas regiões, o Pará também foi apontado como um polo relevante de inovação em nível nacional, impulsionado pela interiorização de políticas públicas, atuação de instituições de pesquisa e fortalecimento de ambientes locais de inovação.
A pesquisa destaca que, embora o maior volume de negócios de tecnologia voltados ao setor ainda esteja concentrado nas regiões Sudeste e Sul, outras áreas do País começam a ganhar dinamismo, especialmente em territórios historicamente menos representados.
Esse avanço é atribuído a políticas públicas, estudos estratégicos e iniciativas que ampliam a capilaridade territorial, favorecem a atração de investimentos e aprimoram o mapeamento do potencial do setor.
Pará em foco
A capital paraense concentra 17 Agtechs (startups de tecnologia agropecuária). O estudo aponta ainda que, desde 2019, o Pará vem trilhando uma trajetória positiva, se consolidando como um dos polos urbanos mais relevantes da região no campo da inovação agropecuária. A presença de hubs, programas locais e outras iniciativas ao longo desse período, mostra a estruturação de um ambiente mais favorável ao empreendedorismo tecnológico no estado.
Para o coordenador do Radar Agtech e analista da Embrapa, Aurélio Favarin, os dados mostram uma clara atuação dos governos estaduais em incentivo à inovação.
“Incubadoras trabalham na fase inicial do processo de inovação. Faz sentido que um estado, pensando no desenvolvimento de um ecossistema, comece pelas incubadoras. A maior parte está vinculada às universidades estaduais. Há um planejamento para isso, para criar condições para que as startups iniciem”, comenta.
Embora o Norte enfrente desafios estruturais, como a grande extensão territorial, que dificulta a integração entre agentes e limita o acesso ao capital especializado, um dado chama a atenção: quando ajustada ao Produto Interno Bruto (PIB), a região apresenta uma intensidade significativa de inovação em nível nacional.
Isso indica que o principal gargalo não está na ausência de iniciativas, mas na necessidade de ampliar a infraestrutura, fortalecer a articulação institucional e aumentar os investimentos.
De acordo com o estudo, esse movimento de expansão de iniciativas está diretamente ligado às vocações econômicas da região, com destaque para áreas como bioeconomia, rastreabilidade de cadeias produtivas, soluções para adaptação climática e uso sustentável da biodiversidade. Essas frentes dialogam com demandas globais por sustentabilidade e segurança alimentar, colocando o Norte em posição estratégica no cenário internacional.
Atuação dos empreendimentos
As agtechs brasileiras estão predominantemente nos segmentos dentro da fazenda (41,1%) e depois da fazenda (40,5%). A categoria “Alimentos inovadores e novas tendências alimentares” lidera o ranking das áreas de atuação, com 15% das agtechs. “Sistemas de gestão da propriedade rural” vem em segundo lugar com 8%, e “Plataformas integradoras de sistemas, soluções e dados” aparece em terceiro com 7,5% das startups analisadas.
A inteligência artificial é amplamente disseminada entre as agtechs, pois 83% das empresas utilizam IA em seus processos ou produtos, e 35% delas têm a IA como núcleo da proposta de valor.
“Esse dado sinaliza que a tecnologia digital deixou de ser diferencial pontual e passou a constituir camada estrutural do modelo de negócio”, afirma Aurélio Favarin.
Próximos passos
Os pesquisadores projetam que o próximo ciclo de crescimento da inovação no agronegócio brasileiro dependerá menos da criação de novas startups e mais da qualidade das conexões entre empresas, investidores, instituições de pesquisa e políticas públicas.
Para o Pará, isso significa fortalecer a governança regional, ampliar o acesso a financiamento e consolidar ambientes de inovação capazes de sustentar o crescimento no longo prazo. O estudo frisa que esse processo já está em curso.
Nesse contexto, o Pará tende a desempenhar papel central, articulando iniciativas, atraindo investimentos e contribuindo para posicionar a região como um território estratégico de inovação no agronegócio brasileiro.


