A ocupação iniciada por lideranças indígenas no porto da Cargill, em Santarém, completa nesta sexta-feira, 20, um mês e já reúne cerca de 1.200 pessoas. O movimento, que teve início com os povos indígenas do Baixo Tapajós, agora reúne também representantes do Médio e Alto Tapajós, além de delegações Kayapó e Panará, ambas vindas do Mato Grosso. Eles pedem a revogação do Decreto 12.600/2025, que privatizava rios da região, como o Tocantins, Madeira e o Tapajós.
Para os manifestantes, o decreto que inclui os rios no Programa Nacional de Desestatização (PND) amplia a possibilidade de concessões e intervenções que podem afetar diretamente o ecossistema e o modo de vida das populações indígenas.

As comunidades defendem a autonomia de seus territórios tradicionalmente ocupados e a preservação de práticas ligadas à dinâmica natural dos rios, como a pesca e a agricultura artesanal.
Em entrevista ao site Um Só Planeta, a liderança indígena do Médio Tapajós, Alessandra Munduruku, afirma que a mobilização conjunta ocorre porque os povos têm consciência de que o decreto pode ameaçar diferentes comunidades da região. Segundo ela, o movimento atua em defesa do futuro territorial da Amazônia.
“Ela (a mudança promovida no decreto) não afeta só o rio. Ela afeta também outros territórios que, muitas vezes, não têm rios grandes, mas têm igarapés. Quando esse decreto aumenta a soja nas regiões, que já está avançando na Amazônia, isso atinge tudo”, frisa.
Reflexo em outras bacias
As delegações Kayapó e Panará, do Mato Grosso, também demonstram preocupação com os possíveis impactos da inclusão dos rios no programa de desestatização. Para esses povos, a medida pode gerar reflexos em outras bacias hidrográficas e territórios conectados à expansão do agronegócio.
Entre os principais pontos de alerta está o aumento da pressão fundiária próximo a áreas como o território Capoto-Jarina, que, segundo eles, pode sofrer impactos indiretos relacionados à infraestrutura da BR-163 e ao projeto da Ferrogrão (EF-170).
Na avaliação das lideranças, o decreto faz parte de uma política que prioriza a exportação de commodities e pode alterar dinâmicas ambientais em regiões que dependem de igarapés, nascentes e sistemas hídricos interligados. Para eles, a mobilização representa uma ampla frente indígena em defesa dos rios e dos povos da Amazônia.

Até o momento, a principal resposta do governo federal foi a suspensão do pregão para a dragagem no Rio Tapajós, anunciada no dia 6 de fevereiro. Para as mais de 1.200 pessoas que permanecem acampadas, no entanto, a medida não é suficiente. Alessandra reforça que a única solução aceita pelas lideranças é a revogação do decreto.
“Enquanto o Lula não revogar esse decreto, a luta vai aumentar”, alerta.
LEIA MAIS
O Tapajós como sujeito: por que os povos tradicionais pararam o pregão da dragagem?
Em Santarém, indígenas protestam contra dragagem do Rio Tapajós há 14 dias
Agrotóxicos sufocam comunidades tradicionais no Baixo Tapajós


