A cerca de 42 quilômetros de Santarém, no oeste do Pará, está localizada a Terra Indígena Planalto Santareno, que abriga quatro aldeias da etnia Munduruku e uma da etnia Apiaká. Nesse território, uma pesquisadora de origem Munduruku, que viveu na aldeia Açaizal, realizou um levantamento que evidencia o papel da sustentabilidade como estratégia para geração de renda e preservação dos saberes ancestrais, especialmente relacionados ao uso de ervas medicinais.
A historiadora Ana Cláudia Silva, do Instituto de Ciências da Educação da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), explica que a pesquisa surgiu da necessidade de registrar os conhecimentos tradicionais da aldeia Açaizal, onde vivem atualmente cerca de 70 famílias, além de reconhecer as iniciativas de apoio à conservação da floresta e ao uso sustentável de seus recursos.
“Esse conhecimento sobre as plantas medicinais desempenha um papel fundamental não apenas na saúde física e espiritual das aldeias, mas também como um patrimônio cultural inestimável”, destaca a pesquisadora.
Nas últimas décadas, a expansão do agronegócio nos limites da terra indígena, especialmente com o avanço da monocultura da soja, trouxe impactos significativos às comunidades. O uso intensivo de defensivos agrícolas afetou o meio ambiente, a economia local e a saúde dos moradores.
“O principal produto extraído pelos indígenas, que ajudava no sustento das famílias, era o açaí. Hoje, quase não há mais, por causa da quantidade de veneno que vem das plantações de soja”, relata uma moradora.
Com a queda acentuada da produção de açaí, outros cultivos passaram a ganhar protagonismo, como mandioca, batata-doce, jerimum, cará, macaxeira, maxixe e feijão. Esses alimentos são destinados tanto ao consumo interno quanto à comercialização em áreas próximas às aldeias.
Com o tempo, os efeitos dos agrotóxicos também refletiram na saúde da população. Moradores relataram problemas de pele e dificuldades respiratórias causadas pela exposição prolongada aos defensivos, principalmente durante a pulverização aérea.
Como resposta, a comunidade realocou suas áreas de plantio e intensificou a produção de remédios tradicionais para atender suas necessidades.
Liderança feminina, identidade e memória ancestral
Com grupos de liderança formados majoritariamente por mulheres, mães e anciãs da aldeia Açaizal passaram a desenvolver estratégias para enfrentar os impactos da atividade agropecuária e da crise climática. A alternativa encontrada foi retomar os conhecimentos ancestrais e promover oficinas de plantio, beneficiamento e comercialização de remédios à base de ervas medicinais.
“Integrar as comunidades é uma forma de manter viva nossa memória e fortalecer a ajuda entre as famílias, já que todas enfrentam problemas semelhantes”, relata uma das participantes das oficinas.
A iniciativa, que começou em Açaizal, se expandiu para todas as aldeias da Terra Indígena Planalto Santareno, promovendo o intercâmbio de saberes, o fortalecimento da sustentabilidade e a geração de renda.
Segundo a pesquisadora, cada povo possui sua própria dinâmica na construção do conhecimento. Embora o uso de ervas medicinais seja comum entre as aldeias, as combinações e os modos de preparo variam, despertando curiosidade e aprendizado durante os encontros.
“Sempre cultivamos remédios caseiros, mas não conhecíamos alguns preparados, como a Pomada Milagrosa, o sabonete íntimo e certas pílulas para vermes”, conta uma das participantes.
Atualmente, os produtos mais comercializados são a Garrafada (preparado com ação analgésica e anti-inflamatória), a Pomada Milagrosa, utilizada como analgésico tópico com efeito termogênico e refrescante, e o xarope, indicado para aliviar dores de garganta e irritações do trato respiratório.
“Cada aldeia tem sua própria receita, mas alguns ingredientes estão presentes na maioria das preparações, como algodão-roxo, mastruz, caapeba, cipó, cumaru e noni, além de cascas de mangueira, taperebá, verônica, jucá, muruci e açaí, assim como sementes e gorduras de origem animal e vegetal”, explica Ana Cláudia.
De forma integrada, as famílias organizam a comercialização dos produtos tanto entre as próprias comunidades quanto em feiras fora da Terra Indígena. A iniciativa permite que cerca de 70 famílias levem além de seus territórios a esperança de um futuro mais sustentável, baseado no respeito à floresta e aos saberes ancestrais.


