Por Tereza Coelho
Quanto menor a conexão, maior o risco de fogo: áreas rurais com pouco acesso à internet concentram os maiores índices de incêndios florestais no país. O dado faz parte de um levantamento da ConectarAgro e da Universidade Federal de Viçosa, que aponta a tecnologia como peça-chave para monitorar e combater focos de calor com rapidez.
A pesquisa lançada em 2026 comparou dados de cobertura de internet móvel 4G e 5G com registros de áreas queimadas no País em 2024. O resultado mostra um padrão: municípios, estados e biomas com menos acesso à internet tendem a ter maiores registros de fogo.
No ano passado, cerca de 31,3 milhões de hectares no Brasil foram atingidos pelo fogo, área equivalente a quase 4% do território nacional. Além dos danos ambientais, os incêndios provocaram prejuízos estimados em mais de US$ 220 milhões em setores como saúde pública, agricultura e energia.
Amazônia no centro do problema
Junto com o Cerrado, a Amazônia concentrou 87% de toda a área queimada do Brasil em 2024, somando 27,2 milhões de hectares. O estudo aponta que a cobertura média de internet móvel nesses biomas é inferior a 6%, considerado muito baixo para regiões com ampla extensão territorial.
No Pará, os melhores índices estão no nordeste e sudeste do estado, onde há maior presença de infraestrutura e redes de transporte. Tradicionalmente, o sudeste paraense concentra áreas próximas ao eixo de mineração e agronegócio, enquanto o nordeste possui maior proximidade ao litoral e à área metropolitana de Belém, onde há maior integração entre municípios e acesso a serviços.
Para os pesquisadores, a combinação de grandes áreas naturais e baixa conectividade dificulta a prevenção, o monitoramento e o combate aos incêndios. No Pará, isso é visível pela baixa conectividade em áreas com menor rede de infraestrutura, especialmente no Arquipélago do Marajó e no Baixo Amazonas.
Municípios como Altamira, Itaituba e São Félix do Xingu exemplificam o perigo do ‘apagão digital’ em regiões críticas. Como a expansão da rede nessas áreas é ditada pela iniciativa privada, o investimento foge de zonas remotas e territórios de comunidades tradicionais. O resultado é um aumento da vulnerabilidade dessas populações diante do avanço dos incêndios florestais..
A presidente da ConectarAgro, Paola Campiello, explica que a conectividade transforma o produtor rural em um aliado na proteção do meio ambiente, pois, com acesso à internet, ele pode usar tecnologias que monitoram temperatura, clima e outras condições que ajudam a prevenir incêndios.
“A conectividade coloca o produtor como agente de mudança, já que permite operacionalizar soluções com câmera, controle de temperatura, entre outras. Sem contar que as informações geradas com auxílio da tecnologia são aliadas importantes de políticas ambientais e de governança pública”, afirma.
Na Amazônia, essa infraestrutura digital pode fazer diferença entre controlar um foco de incêndio rapidamente ou enfrentar grandes queimadas que se espalham por milhares de hectares e atingem recordes históricos.


