Pela primeira vez, a ciência quantificou o impacto real do programa Bolsa Verde na preservação da Amazônia. Um artigo científico publicado no primeiro número de 2026 do Journal of Environmental Economics and Management revela que a derrubada de floresta primária caiu 30% nos assentamentos e unidades de conservação de uso sustentável que participaram da primeira fase do programa (2011-2016).
O estudo, que analisou dados a partir dos primeiros pagamentos realizados em 2012, é fruto de uma colaboração internacional entre pesquisadoras do Brasil, Reino Unido, Noruega e Cazaquistão, envolvendo instituições como o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Os números apresentados pela pesquisa impressionam pelo custo-benefício. Entre 2012 e 2015, o programa evitou o desmatamento de 22,6 mil hectares. Em termos climáticos, isso representa 8,3 milhões de toneladas de gás carbônico que deixaram de ser emitidas na atmosfera.
Os especialistas avaliaram essas emissões evitadas em 199 milhões de dólares, valor que equivale a 2,8 vezes o custo total da primeira fase do programa. Enquanto no mercado internacional de mitigação o preço da tonelada de gás carbônico varia entre 40 e 190 dólares, o Bolsa Verde alcançou o patamar de 8,6 dólares por tonelada.
“Nossas estimativas sugerem que as emissões evitadas custaram cerca de 8,6 dólares por tonelada, um resultado excepcional de custo-benefício em comparação com a maioria das ações climáticas. Em um momento em que o desmatamento continua a pressionar as florestas tropicais, essas descobertas mostram que programas como o Bolsa Verde podem gerar impacto real — um exemplo claro de que políticas sociais e ambientais podem e devem caminhar juntas”, avalia Po Yin Wong, pesquisadora da Universidade Queen Mary, em Londres, e principal autora do estudo.
Impacto social e governança
Na fase analisada, o Bolsa Verde pagava 300 reais por trimestre a famílias em situação de extrema pobreza (renda mensal de até R$ 77 na época) residentes em áreas prioritárias, como populações extrativistas. O benefício funcionou como um braço complementar à fiscalização tradicional, alcançando locais de difícil acesso.
A pesquisa destaca a “condicionalidade coletiva”: o pagamento só era liberado se toda a área estivesse em conformidade com o Código Florestal. Isso gerou um efeito colateral positivo na organização das comunidades.
“O que observamos é que o Bolsa Verde influenciou positivamente a governança das áreas. Nas Unidades de Conservação, por exemplo, houve aproximação entre as famílias atendidas e os gestores, fortalecendo o diálogo e a presença institucional. Ao mesmo tempo, o programa estimulou a articulação interna entre os próprios beneficiários, com a criação de associações e outras formas de organização coletiva”, afirma Ana Carolina Pessôa, pesquisadora do IPAM e coautora do trabalho.
Metodologia e retomada
Para chegar aos resultados, as cientistas utilizaram modelagem econométrica e testes de robustez em 317 áreas beneficiadas, abrangendo 21 mil famílias, localizadas majoritariamente no chamado “Arco do Desmatamento”. Foram cruzados dados de satélite do INPE, registros do CAR (Cadastro Ambiental Rural), infrações do Ibama e ICMBio, além de indicadores socioeconômicos.
Com a retomada do Bolsa Verde em 2023, o programa foi fortalecido: o valor pago às famílias foi dobrado e o alcance geográfico expandido, consolidando-se como uma ferramenta estratégica para as metas ambientais brasileiras.


