Há 14 dias, mais de mil indígenas de diversas etnias ocupam uma unidade da trading Cargill e mantêm mobilizações intensas em Santarém (PA). O alvo é o Decreto Federal 12.600/2025, que incluiu a Hidrovia do Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND), abrindo caminho para a dragagem do rio entre Santarém e Itaituba sem, segundo as lideranças, a devida consulta prévia às comunidades.
O conflito ganhou escala após os manifestantes paralisarem o acesso ao aeroporto de Santarém nesta quarta-feira, 4, ato que forçou o Governo Federal a abrir um canal direto de negociação. Em resposta, uma audiência foi marcada para esta quinta-feira, 5, com o Ministério dos Povos Indígenas e a Secretaria-Geral da Presidência, onde será discutida uma contraproposta que exige a revogação do decreto e a paralisação imediata de qualquer dragagem.
As lideranças denunciam que intervenções no rio já começaram ilegalmente, antes mesmo da conclusão dos estudos ambientais e sem o cumprimento da Consulta Livre, Prévia e Informada prevista na Convenção 169 da OIT.
Essa percepção de irregularidade é reforçada por uma divergência técnica entre os órgãos públicos: enquanto o DNIT afirma já mapear sete pontos críticos para a intervenção, a Secretaria de Meio Ambiente do Pará (Semas) sustenta que não há qualquer pedido de autorização protocolado para a obra.
Embora o governo federal argumente que o decreto foca apenas na realização de estudos, o movimento indígena mantém a pressão.
Em entrevista ao G1, Auricélia Arapiun, uma das lideranças à frente do movimento, diz que o bloqueio do acesso ao aeroporto cumpriu o propósito de chamar a atenção das autoridades e outros agentes que ampliassem a repercussão ao tema.
“A nossa ida pra lá foi realmente para que eles entendessem que nós não estamos de brincadeira, precisamos de uma resposta séria e comprometida do governo. O bloqueio surtiu efeito, ontem, enquanto estávamos lá o governo reuniu e enviou uma proposta. Por volta das 22h, os parentes reuniram e decidiram que o grupo que estava no bloqueio deveria retornar pra que todo mundo discutisse junto a proposta. Estamos em mais de mil pessoas da região do Tapajós, precisamos ouvir a opinião de todo mundo para apresentar essa contraproposta”, comenta.
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