A crise climática está acelerando o relógio das secas e inundações em regiões geograficamente distantes, alterando o padrão climático global. Esta é uma das informações reveladas em um estudo conduzido por cientistas da Universidade do Texas, em Austin, e publicado na revista AGU Advances.
O estudo aponta que os ciclos climáticos de EL NIÑO e LA NIÑA têm sincronizado eventos extremos de água em diferentes continentes ao mesmo tempo, contribuindo para o aumento dos riscos à segurança hídrica, alimentar e econômica global.
“Conseguimos identificar quais áreas estão ficando secas ou úmidas ao mesmo tempo”, explica Bridget Scanlon, coautora do estudo e professora pesquisadora do Bureau of Economic Geology da Universidade do Texas. “Isso afeta diretamente a disponibilidade de água, a produção de alimentos e o comércio global.”
Por meio da análise de dados de satélite dos últimos 20 anos, os pesquisadores identificaram que o fenômeno climático conhecido como ENSO (El Niño–Southern Oscillation) é o principal motor das mudanças extremas no armazenamento total de água da Terra, criando um tipo de ‘caos sincronizado’.
O autor principal do estudo, Ashraf Rateb, explica que a abordagem permitiu enxergar conexões globais antes pouco exploradas.
“Eventos extremos são, por definição, raros, o que gera poucos dados ao longo do tempo. Em vez disso, analisamos como esses extremos estão conectados espacialmente, o que oferece muito mais informação sobre os padrões que impulsionam secas e enchentes no mundo”, afirma Ashraf Rateb.
A pesquisa traz dois exemplos deste ‘caos sincronizado’, ocorrido especialmente após os anos 2000. No meio daquele ano, um evento de El Niño coincidiu com uma seca severa na África do Sul. Já em 2015 e 2016, outro episódio do fenômeno esteve associado à grande seca registrada na Amazônia. Por outro lado, a La Niña de 2010 e 2011 levou a condições úmidas acima do normal na Austrália, no sudeste do Brasil e, mais uma vez, novamente no sul da África.
Outra observação apontada no estudo é que entre os anos de 2011 e 2012, houve uma mudança estrutural no comportamento da água em escala global. Na prática, os extremos úmidos eram mais frequentes até este período, mas posteriormente os extremos secos ganharam mais destaque.
Os resultados, segundo os autores, reforçam a necessidade da sociedade e agentes públicos repensarem a forma como pensam, lidam e gerenciam a água. Os estudiosos reforçam que o problema não se limita a escassez hídrica, mas também ao gerenciamento de extremos cada vez mais intensos, sincronizados e consecutivos.
“Costumamos ouvir que estamos ficando sem água, mas o verdadeiro desafio é lidar com os extremos”, afirma Scanlon. “E essa é uma mensagem bem diferente.”


