Porteira aberta 24 horas por dia, sete dias da semana. É dessa forma que a Fazenda Mironga recebe os visitantes de Soure, na Ilha do Marajó, que querem conhecer mais sobre a Rota do Queijo do Marajó, o primeiro produto paraense a conquistar o Selo de Indicação Geográfica do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Com a conquista do selo e o início da comercialização fora do Pará, os produtos feitos a partir do leite de búfala despertaram o paladar e a curiosidade dos visitantes, atraindo pesquisadores, pecuaristas e visitantes para o Marajó.
“Nós contamos a história completa: da chegada dos búfalos ao Marajó, à relação deles com os moradores da ilha, o potencial econômico dos derivados do leite e da importância ambiental e cultural do que é vivido aqui” conta o fazendeiro Augusto Gouvêa, o Tonga, referência na produção artesanal e sustentável do queijo de búfala.
Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o leite de búfala, matéria-prima do Queijo do Marajó, é considerado mais nutritivo que o leite de vaca por possuir elevados níveis de ácidos graxos essenciais (cáprico, mirístico, palmítico, esteárico, palmitoleico), vitaminas (A, D, E, B2 e B6) e proteínas (caseína tipo A2), transformando o leite de búfala em um produto com menos lactose e menor potencial alergênico.
Turismo pedagógico e sustentabilidade
A Ilha do Marajó abriga o maior rebanho de búfalos do País, com cerca de 700 a 800 mil animais concentrados principalmente em Soure, Chaves e Cachoeira do Arari. Foi nesse cenário que Tonga e sua filha, Gabriela, idealizaram a Vivência Mironga, um roteiro de turismo pedagógico com base socioambiental dedicado ao papel do búfalo na região.

“Queremos mostrar a importância do búfalo para o povo do Marajó e para o meio ambiente. Sabíamos que, em algum momento, o búfalo seria descoberto pelo Brasil e pelo mundo, e iniciamos a Vivência em 2017 para promover um turismo sustentável, que não fosse predatório. A porteira está sempre aberta porque não trabalhamos apenas para turistas, mas para estudantes, pesquisadores e moradores que querem conhecer mais sobre o assunto”, explica Tonga.
Contato direto com os animais
Com cerca de duas horas de duração, a experiência permite que os visitantes tenham contato direto com os animais, podendo tocá-los e ordenhá-los. O visitante pode ainda participar de rodas de conversa sob árvores frutíferas ouvindo detalhes da história dos bubalinos no cotidiano marajoara, presente até mesmo na rotina policial, que utiliza búfalos nas rondas.
O passeio inclui ainda a visita à sala de fabricação do queijo artesanal e a degustação de produtos locais, como doces de leite, pão de queijo de búfala e frutas colhidas no próprio terreno, tudo diante das paisagens de pastos alagados e igarapés.
Tonga reforça que a fazenda não quer ser reconhecida apenas pela produção de laticínios, mas como um espaço de educação para manejo sustentável, produção consciente e respeito ambiental.
“É comum que a lógica do mercado faça o produtor esquecer o que realmente importa: o meio ambiente, o bem-estar animal e o impacto social do seu trabalho. Estamos aqui para lembrar que é possível produzir bem e deixar um legado, não da Mironga, mas dos búfalos para as pessoas”, afirma.
Gabriela, presidente da Associação dos Produtores de Leite e Queijo do Marajó, explica que o turismo tornou possível implementar mudanças idealizadas pelo pai, como ampliar a educação ambiental e integrá-la ao papel turístico da propriedade de 90 hectares, além de transformar as demais atividades produtivas como ferramentas de fortalecimento dessa rede.
Cadeia movimenta a região
Hoje, o turismo representa dois terços da receita da Mironga, mas o impacto prático vai muito além. Ao todo, mais de 100 parceiros entre guias, professores, trabalhadores da hotelaria, empreendedores e produtores, participam da cadeia que gera renda em Soure e no Marajó.
A produção da Mironga, atualmente estimada em 40 quilos de queijo por dia, é vendida integralmente aos visitantes por meio de uma loja colaborativa. O excedente de leite é repassado a pequenos empreendedores para a produção de manteiga, doce de leite e pão de queijo. Esses produtos retornam à fazenda para serem vendidos ou integrados às degustações.
“Dividir oportunidades é essencial. Se não utilizamos todo o leite, é justo ajudar quem não tem espaço ou recursos para manter um rebanho. Oferecemos um leite de procedência segura e recebemos, em troca, produtos que os visitantes levam para casa. Cada embalagem leva um pouco da nossa missão”, diz Tonga.
Entre os parceiros está Francisco Moya, proprietário da Fazendinha Buba, cafeteria especializada em receitas marajoaras como o frito do vaqueiro e o pão de queijo de búfala. Nascido em Cachoeira do Arari, Moya deixou a carreira de advogado em Belém para empreender perto das raízes.
“Estar em casa é sempre bom. A vida funciona diferente aqui”, comenta.
Duas vezes por semana, ele chega à Mironga ao amanhecer para buscar o leite que utiliza no pão de queijo vendido tanto em sua cafeteria quanto em supermercados locais.
“Eu divulgo a Mironga, eles me divulgam. Com essa renda, consigo contratar pessoas e expandir a produção. É uma cadeia que permite que mais pessoas permaneçam no Marajó, sem precisar sair por falta de oportunidade”, afirma Moya.

Educação, pesquisa e futuro
Agrônomo por formação, Tonga sonha em criar em Soure o Centro de Estudos da Bubalinocultura, a ‘Universidade do Búfalo’. Ele acredita que esse seria o maior legado para os jovens marajoaras: a possibilidade de estudar e crescer sem deixar sua terra.
“Durante muito tempo, estudar significava abandonar tudo e passar décadas em Belém. Já temos universidades mais próximas, mas queremos a educação ainda mais perto. As crianças crescem ao lado dos búfalos; é importante que saibam que podem construir o futuro aqui”, diz.
O projeto prevê pesquisas sobre genética, manejo, sanidade e aproveitamento integral do búfalo. Tonga já busca parcerias e conta com o apoio de profissionais locais.
“Precisamos de mais gente estudando o búfalo: leite, couro, carne, manejo. Uma rede de pesquisa que valorize a região e o seu povo”, explica.
Ele garante que a Mironga já coloca em prática os princípios que pretende levar à universidade, como o manejo sustentável, a agroecologia e a economia circular.
“Não usamos tração animal nem processos mecânicos na ordenha. Também priorizamos a contratação de moradores locais. O manejo sustentável é possível e o resultado não é só para nós, é um patrimônio do Marajó”, destaca Tonga



