Por Tereza Coelho
O uso do mercúrio na mineração de ouro é uma prática milenar, mas o custo ambiental e humano tornou-se insustentável. Nas últimas décadas, a comprovação de que o metal pesado contamina cadeias alimentares e causa doenças graves levou cientistas a buscarem alternativas. E foi na Amazônia que eles encontraram uma solução promissora.
Desde 2020, cientistas da Embrapa Florestas estudam compostos das folhas do pau-de-balsa (Ochroma pyramidale) como substitutos biológicos e seguros para a separação do metal em garimpos de pequena escala.
A técnica é inspirada em mineradores da Colômbia, que já utilizam a seiva da planta de forma artesanal. No Brasil, o grupo de pesquisa identificou quatro compostos químicos capazes de isolar o ouro.
Em 2025, os extratos foram testados em condições reais em Peixoto de Azevedo (MT), em parceria com a Cooperativa dos Garimpeiros do Vale do Rio Peixoto de Azevedo (Coogavepe).
Marina Morales, pesquisadora da Embrapa Florestas, detalha a inspiração no país vizinho:
“O uso sustentável do pau-de-balsa na Colômbia em substituição ao mercúrio nos inspirou a buscar uma aplicabilidade de forma mecanizada, levando em conta também os lugares de acesso mais desafiadores dos garimpos de pequena escala, como os situados na Amazônia Legal.”
Sustentabilidade e recuperação ambiental
O uso do pau-de-balsa oferece uma estratégia de “dupla ação”: substitui o metal tóxico e auxilia na recuperação da floresta, já que a espécie é nativa. Segundo Morales:
“A mitigação dos impactos ambientais dos garimpos de pequena escala tem dois principais focos: substituir o uso do mercúrio e recuperar as áreas exploradas com o plantio do pau-de-balsa, entre outras espécies de cada bioma.”
A pesquisadora destaca que a parceria com a Coogavepe é fundamental, pois a cooperativa possui mais de 200 licenças de operação no modelo de “baixão” (depósitos aluvionares).
“A cooperativa possui diversos garimpos de pequena escala legalizados na região amazônica e atualmente conta com mais de 200 licenças de operação, em sua maioria do tipo tradicional conhecido como garimpo de ‘baixão’, com depósitos aluvionares.”
Desafios e viabilidade econômica
Apesar dos resultados promissores e do pedido de patente em curso, a substituição do mercúrio enfrenta barreiras culturais e práticas.
“Temos que superar desafios tecnológicos e de substituição de uma prática que é milenar. O mercúrio apresenta praticidade, rapidez e certo grau de eficiência na extração do ouro”, afirma Morales.
Para a mudança ser efetiva, será necessário investir em conscientização, crédito e novos equipamentos. Economicamente, o pau-de-balsa é versátil: sua madeira leve é valorizada para aeromodelismo, pranchas de surf e isolamento acústico. Sobre a abrangência da solução, a pesquisadora pondera:
“Todas as áreas podem ser beneficiadas, mas necessitam de alfuns ajustes de manejo. A principal vantagem do pau-de-balsa é que ele pode se tornar uma alternativa econômica inclusive em áreas com menor aptidão para a agricultura e pecuária.”
Parcerias Institucionais
Além da Embrapa, outra iniciativa que atua no estudo do pau-de-balsa como alternativa sustentável é o Projeto Ochroma, fruto de uma parceria entre o Instituto Militar de Engenharia (IME), a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade do Estado do Amazonas.
O projeto sediado no Laboratório de BioGeoQuimica Ambiental da UNIR prevê a criação de viveiros de pau-de-balsa para distribuição e plantio em sistemas de Agrofloresta Sustentável (SAF), criando uma simbiose entre a produção agrícola e a conservação ambiental.
LEIA MAIS
MMA e Fiocruz iniciam monitoramento de mercúrio na Terra Indígena Kayapó, no Pará
MPF recebe propostas e contribuições sobre os efeitos negativos do uso de mercúrio na mineração
Garimpos ilegais de ouro reduzem estoque de carbono e aumentam contaminação por mercúrio no solo


